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Não é spoiler se o filme tem + de dez anos.
Bobagens Imperdíveis

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 116
filmes / vídeo / música

Você não está só, Steve Zissou


Olá, olá! É de bom tom dar um olá de vez em quando, perguntar como foi sua semana, eu, que geralmente já chego com o pé na porta com o assunto da vez, tão direto ao ponto que nem dou tempo de um cumprimento cordial para que você saiba que estou te vendo. Então: olá!

O Nerdwriter, canal maravilhoso que indiquei na última edição, fez recentemente um vídeo sobre seu filme do Wes Anderson favorito. Para ele, o filme do diretor que mais o tocou foi The Darjeeling Limited, de 2007, filme que ainda não vi, mas, depois da análise incrível que ele fez, me deixou morrendo de vontade de assistir.

(Se você não sabe de quem estou falando, Wes Anderson é um cineasta conhecido por filmes com enquadramento centralizado, cores vibrantes e Owen Wilson aqui e ali. É culpa dele filmes como Moonrise Kingdom, The Grand Hotel Budapest, The Royal Tenembaum e até uma animação maravilhosa chamada Fantastic Mr. Fox).

Gostei tanto do vídeo e da pergunta que ele deixa ao final (“qual é o seu filme favorito do Wes Anderson?”) que me senti compelida a respondê-la aqui, nesta edição. Não sou nenhuma especialista em cinema ou em Wes Anderson, mas a resposta já estava na ponta da língua: entre os que eu assisti, o que mais me tocou foi The Life Aquatic with Steve Zissou.

gif animado com cena do filme em que aparece o título "The Life Aquatic" com mergulhadores nadando ao fundo de uma moldura de corais

Se você for olhar na Netflix, vai encontrar duas estrelinhas desencorajadoras (2 estrelas, uma que diz “meh” e a outra diz “afaste-se desse filme!!”), o que, confesso, fez com que eu me sentisse deslocada e com a sensação de ter um tremendo mau-gosto para cinema.

Advantageous (escrevi sobre ele aqui), à época em que assisti, também contava com duas míseras estrelas na avaliação dos espectadores da Netflix, o que na minha opinião não correspondia à qualidade do filme; então, ou a) esses filmes não encontraram o público certo e foram mal avaliados; ou b) você não deveria levar a sério minhas recomendações, já que aparentemente tendo a gostar de filmes bosta.

Ou ainda c) não deveríamos nos importar tanto com esse “gostei” ou “não gostei” e parar de pautar o que achamos de determinada obra pela opinião dos outros. Talvez c.

Mas acho que as duas estrelinhas (e muitas críticas que encontrei por aí esculachando o filme) fazem todo sentido – e eu diria até que fazem parte do motivo deste ser meu filme favorito do diretor.

Claro, também é meu filme favorito por ser sobre exploradores do oceano, por ter o Bill Murray, Anjelica “Morticia” Huston, Jeff “Dr. Malcolm” Goldblum, Cate fucking Blanchett, e pela maravilhosa trilha sonora do David Bowie cantada em português pelo Seu Jorge. 

Mas senta e prepara um café, porque não é só por isso que escolhi escrever sobre este filme na newsletter de hoje. 

gif da Mortícia tomando uma xícara de café com um olhar bastante sugestivo

The Life Aquatic é desconcertante. É como The Office, minha série favorita de todos os tempos, que desperta em mim os sentidos mais primitivos de vergonha-alheia. The Office tem o tipo de humor que não funciona pra muita gente, porque se baseia em constrangimento. A gente sente vergonha de achar graça. Acha graça porque sente vergonha.

Mas, em vez de um Michael Scott sem noção ou de um David Brent (o chefe da versão britânica) psicoticamente vaidoso, temos Steve Zissou, com seu olhar triste e cansado, de quem sabe que é um fracasso e que sabe que a gente também sabe.

gif de Steve Zissou dando uns pulinhos como quem se exercita

Steve Zissou é exatamente o Jacques Cousteau, se o Jacques Cousteau fosse o Bill Murray. Deu para entender? Ele é um oceanógrafo que sai viajando pelo mundo em seu barco Belafonte, acompanhado de sua fiel equipe, vivendo altas aventuras e registrando tudo em forma de documentários (a maioria financiada pela fortuna de sua esposa, Eleanor).

A primeira cena, que mostra a estreia de seu mais recente filme, além de servir para apresentar todos os integrantes da Equipe Zissou, já dá o tom do deslocamento presente em The Life Aquatic: a plateia inteira olha inexpressiva para a tela, com aquela cara de quem vai dar uma avaliação de 2 estrelas depois. É como se a metalinguagem não tivesse a menor vergonha de dar as caras!

Isso só se reforça quando, depois da exibição, uma mulher aborda um Steve apático, ciente do fiasco de sua produção, para lhe dar os parabéns, dizendo: “não acho que eles tenham entendido”. E o filme brinca o tempo inteiro com isso: o que a gente entende do que os personagens não entendem daquilo que eles acham que a gente tenha entendido.

Esses desentendimentos entre os personagens e espectadores, assim como as brincadeiras com metalinguagem, acabam servindo para nos colocar dentro da história, não apenas do lado de cá da tela, mas lá, balançando com Zissou no convés do barco.

E isso é feito gradualmente: primeiro, vem o sentimento de sermos espectadores, já que tudo começa na exibição de um filme; depois, quando acompanhamos os personagens na expedição de caça ao suposto tubarão-jaguar (que engoliu o melhor amigo de Zissou durante as gravações do documentário anterior), vem o sentimento de que estamos acompanhando um reality show, os bastidores da vida daquelas pessoas; em seguida, ficamos tão íntimos que nada mais é encenação ou documentário, mas sim a verdade da convivência entre nós e os personagens.

É como se, à medida em que o filme se desenrolasse, eu também fosse me tornando uma integrante da Equipe Zissou.

gif com toda a Equipe Zissou no submarino enquanto Bill Murray pilota

Porque é uma expedição cheia de indas e vindas; sobre gente que vai embora e sobre gente que passa a fazer parte do time (inclusive o espectador, por que não?). E  é uma equipe que se mantém unida justamente porque são todos muito solitários. Como o próprio Steve Zissou define: “somos um bando de errantes”.

Até mesmo o cachorro de três patas, que é abandonado por piratas no navio de Steve, é acolhido pela equipe; porque, como cada um ali, aquele cão também é uma criatura que ficou só.

Então, na superfície, pode até ser a história de uma busca a um tubarão-jaguar que pode ou não existir nas profundezas, mas desde o fiasco financeiro dos filmes de Zissou até as constantes quedas de energia no barco por mau contato na fiação, tudo na história é um pretexto para falar de família. E solidão.

Ajuda a entender que a história se trata de família quando Ned aparece (aí entra o Owen Wilson que não podia faltar em um filme de Wes Anderson que se preze) e se apresenta como o filho que Steve teve e nunca conheceu – e vemos a relação entre os dois se desenvolver, apesar de não terem certeza se são mesmo pai e filho.

Eleanor chega a questionar Steve sobre por que ele traz Ned para trabalhar na expedição. A resposta dá a dica da necessidade de conexão que Zissou está buscando: “eu acredito nele. Porque ele me respeita.” E isso significa muito enquanto todo o resto acha ele um fracasso.

O olhar sempre triste de Bill Murray é a presença constante desse vazio, que ele sente como algo que perdeu, mas não sabe o que é: “Perdi meu talento? Serei bom novamente?”. O olhar sempre triste é a cicatriz de uma solidão tão profunda quanto a Fossa das Marianas.

Falando assim parece que o filme é super dramático, né? Mas juro que não.

gif com a tripulação se preparando para mergulhar, enquanto Zissou, vestido de mergulhador, dá uma reboladinha esquisita

Longe de ser uma obra “cabeçuda”, The Life Aquatic é um filme engraçado e doido, onde nada é óbvio: nem o tipo de humor, nem a forma de representar a vida marinha (em animações super coloridas e fofas, quase saídas de um sonho), nem os diálogos, nem as cenas de ação – quando o navio é sequestrado por piratas e dá a “doida” no Steve, ele sai atirando de roupão e sunga, algo que deveria soar heróico mas acaba parecendo meio ridículo, enquanto não ouvimos os tiros, apenas um rockzão bem alto.

Outra coisa interessante é como os personagens homens são frágeis e extremamente carentes, enquanto as mulheres são mais inteligentes e racionais. “Eleanor é o cérebro da equipe Zissou”, Steve sempre diz, e é verdade. Eleanor, a jornalista Jane (Cate Blanchett) e Anne-Marie sabem o que estão fazendo, porque alguém naquele barco precisa saber (e no caso não é Steve).

Elas têm uma consciência da situação que os personagens homens não têm, o que deixa tudo tão cômico quanto alguém que está com um cartaz “me chute” nas costas e não sabe, mas o amiguinho sabe.

gif animado de dois caranguejos listrados brigando, enquanto um menorzinho assiste e parece torcer

Eu poderia pinçar vários desses momentos, ficar analisando a maravilhosidade de diversas cenas que me tocaram, porque quando assisti pela segunda vez enchi meu caderno de anotações, inclusive coisas soltas como “lapso de olhos loucos” que não faço ideia de como encaixaria no texto depois (se você viu o filme, vai saber o que é). Mas você não vai ter todo tempo do mundo, né?

No entanto, para manter a direção que escolhi para o texto e irmos logo com isso, queria apenas ressaltar uma cena. Steve está conversando com Jane, a jornalista que passou um tempo no barco para fazer uma entrevista sobre ele. Steve estava com medo de que ela escrevesse algo que o esculhambasse (como muitas resenhas desse filme, olha a metalinguagem), mas até que ele gostou da prévia que ela mostrou antes de mandar para o jornal.

E então Steve fala algo sobre a reportagem que resume meu sentimento com o filme: “Fiquei meio constrangido no início. Mas depois percebi: esse sou eu”. 

(!!!)

E aí senti que a solidão é também ser a própria piada interna, aquela que ninguém entende; mas alguém vai entender, e é na solidão que essas pessoas vão se encontrar e entrar para o mesmo time na longa jornada do barco da vida. Como diria Steve Zissou, em mais uma daquelas linhas de diálogo super simples mas tão significativas: “terminamos a viagem em nossa embarcação ferida”.

Porque a solidão é um filme com duas estrelas que ninguém dá moral. A solidão é o constrangimento da piada que ninguém entende. E nessa solidão me sinto junta à Equipe Zissou. Sinto que, de alguma forma, pertenço à família.

“Você não está só”, canta Seu Jorge. E eu repito para o filme (não para Wes Anderson, não para um personagem ou outro, não para o cachorro perneta que ficou sozinho na praia, mas para o filme): você não está só, você não está só; estou aqui para te proteger.

 gif de Steve Zissou segurando uma maçã mordida enquanto uma orca passa na janela para o aquário atrás dele
 


Bônus Track


Um dos pontos altos do filme sem dúvidas é a trilha sonora, feita pelo Seu Jorge, que também é um dos personagens! O que é simplesmente genial, porque a trilha sonora acaba se tornando parte da história de forma muito orgânica.

O próprio Seu Jorge conta que ele foi chamado só para fazer as músicas, versões em português para canções do David Bowie, mas Wes Anderson resolveu colocar ele no filme e escrever pequenas falas para ele. Aliás, o que chamou a atenção do diretor para Seu Jorge foi a atuação dele em Cidade de Deus, como Mané Galinha.

Todas as músicas maravilhosas que Seu Jorge toca no filme foram compiladas em The Life Aquatic Studio Sessions e dá para ouvir tudo no Spotify.

Se você puder ouvir agora uma música da trilha sonora, e apenas uma, peço para que escute “Rock N’Roll Suicide”, porque foi da letra dela que saiu o título e o sentimento da newsletter de hoje.

  Capa do álbum The Life Aquatic Studio Sessions, com Seu Jorge segurando um violão e vestindo a roupa azul e touca vermelha do Time Zissou

•••

O humor sutil e irônico de The Life Aquatic só funciona tão bem porque é o Bill Murray. O protagonista ser o Bill Murray já acrescenta uma camada de significado extra, porque o cara já é um meme de si mesmo.

Há uma ironia peculiar na própria existência de Murray. É como se, seus personagens, por estarem no corpo de Bill Murray, ganhassem um distanciamento da história onde estão inseridos, e nunca a levassem a sério. Eles simplesmente não ligam pra nada, mesmo nas cenas mais dramáticas.

Com esse distanciamento que ele cria, ele nos aponta para o absurdo das situações e leva a ironia para um outro nível. Murray nos dá performances irônicas em que seus personagens (como Zissou, por exemplo) não sabem o significado daquilo que estão fazendo, mas nós sabemos que Bill Murray sabe que os personagens não sabem. Deu pra entender?

Tudo isso é melhor explicado nesse vídeo bem interessante sobre a filosofia (!) por trás de Bill Murray. Vale o play.

 capa do vídeo com o título The Philosophy of Bill Murray sobre o rosto do ator
 


Tenho algo pra você


Se você entrou há pouco tempo no time de Bobagens Imperdíveis, tenho um presente para você.

Se bater a bad, o desespero, ou se você estiver numa daquelas situações em que um conselho vai bem, a Dona Mexerica, personagem que surgiu nesta newsletter, tem algumas palavras de sabedoria para você, como estas:

 Três cartas da Dona Mexerica: "Raiva é como bosta. Você pode tacar nos outros ou usá-la para adubar seu jardim"; "Anote ideias ruins. Você precisa de um bocado delas para chegar numa boa"; "Em vez de criar problemas na sua cabeça, crie gatinhos"

Você pode baixar de graça o deck completo com todas as Cartas da Dona Mexerica Para Situações de Emergência e usar como sua imaginação mandar! Só clicar aqui.

Já tem gente montando o próprio deck, como a Lauane e a Gabriella:

 fotos enviadas pelas leitoras mostrando as cartas da Dona Mexerica que imprimiram em casa
 


E o lançamento no Rio,
como foi?


Tenho IBAGENS. E muito amor pela galera firmeza que foi lá marcar presença e acabou recebendo a dica até então inédita de um easter egg que eu escondi no livro que deixou todo mundo: “CARACAAAA”.
 
Hoje em dia, não ser um Pokémon e as pessoas saírem de casa para te ver é grande coisa sim, acredite. Valeu demais, Rio.

 foto em que sorrio super naturalmente ao lado de um leitor que também segura o livro super naturalmente
momento aja naturalmente
 

Clube(s) de Leitura


Importante lembrar que dia 20 de julho, nessa quarta-feira agora, às 19h, vai rolar Clube de Leitura #LeiaMulheres no Rio de Janeiro com As Águas-vivas não sabem de si. Fica o convite para você participar! Será na Livraria Blooks, na Praia de Botafogo.

Aqui o evento para você não esquecer a data ;)

E em agosto o Clube de Leitura #LeiaMulheres com meu livro será em Porto Alegre! Sei que tem uma galerinha lendo o livro nas gloriosas terras do sul, então se você for uma dessas pessoas, já marca a data aí na sua agenda!

Vai ser no dia 27 de agosto, às 16h, na Biblioteca Josué Guimarães. Confirma participação aqui no evento!

•••

 ilustração animada de Steve Zissou dançando sobre um fundo amarelo

E é isso o que temos para hoje!

Até o fechamento desta edição, assisti a mais um filme com apenas 1 estrela na Netflix, e até que eu gostei? Nem o Marcos teve paciência com o filme, mas poxa, achei bonzinho. Acho que sou mesmo um caso perdido.

Se gostou desta edição, você pode fazer ela se espalhar pela internet como lutjanídeos fluorescentes no oceano compartilhando este link.

Até qualquer dia e continue a nadar, continue a nadar.

Beijos aquáticos,

Aline Valek

Nas edições passadas...


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