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Ao som de Mad World


Vou te contar que conheci o isolamento e fomos tomar um café (ele pagou).
 
Tentei encontrar com ele dizendo “hoje não vai dar”, ou não respondendo aquela mensagem, ou fechando as redes sociais e as cortinas de casa.
 
Nem precisava.
 
O isolamento não está nas paredes, no cadeadinho no perfil, na distância de metros de outro ser humano.
 
O isolamento não pode ser medido no espaço.
 
Já pensou que o momento que escrevo não é o momento que você lê?
 
Que quando curto sua foto de comida, você provavelmente já cagou tudo?
 
Que se chegarmos no mesmo horário ao lugar do encontro, não significa que estaremos juntos no tempo?
 
Eu estava concentrada demais trabalhando quando você só queria se divertir. Eu precisava falar de algo mais profundo, mas você estava comentando a TV. Quis ver coisas bobas, mas sua preocupação estava nas sérias.
 
Mas isso não importa; agora posso escolher o tempo mais confortável para me conectar com o outro.
 
A conversa que estaria concentrada num almoço num café numa noite ganha espaço com a internet: uma grande conversa diluída numa semana inteira, com intervalo de horas, mas sempre ali acontecendo, mesmo sem respostas imediatas. 
 
(mas tem quem fique brabo se a mensagem visualizada não é respondida)
 
O isolamento está na falta de sincronia, nesse desencontro temporal, em nos vermos o tempo inteiro mas nunca ficarmos juntos no mesmo MOMENTO.
 
“Vamos nos encontrar?” Depende: em qual hora, lugar e frequência?
 
Sincronizar gente é tecnologia complicada.
 
Somos a geração mais conectada; vai ver é por isso que a solidão também consiga chegar até nós tão fácil (ela usa Google Maps).
 
Vamos ficar sozinhos juntos?
 
Não devia ser tão ruim se isolar, se é dando um passinho pra trás que a gente consegue enxergar as coisas com o distanciamento necessário para as coisas fazerem sentido.
 
Porque assim de perto é tudo muito absurdo.
 
Inclusive eu.
 
O isolamento me disse que preciso fazer sentido sozinha, sem precisar da validação dos outros, da opinião dos outros, da energia dos outros.
 
“Viva só, como um rinoceronte”, já diria Buda.
 
“Há diversão e amor no meio de companheiros, e abundante afeição pelos filhos. Embora avesso à separação daqueles que são amados, viva só, como um rinoceronte.”
 
Então me afasto: não para não te ver, mas para ver com clareza, para encontrar sentido em mim mesma, para tentar não depender, se a diferença no tempo às vezes nos afasta.
 
Preciso funcionar sozinha especialmente para não doer tanto aquele momento em que ninguém se encontra em tempo nenhum.
 
“Tem alguém sentado aqui?”, você perguntou, quando foi ao café me encontrar.
 
“Não mais”, respondo. 
 
Ao meu lado, a cadeira onde o isolamento me fazia companhia estava agora vazia. Do jeito que ela sempre esteve.
 
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Parte importante da newsletter de hoje está neste texto aqui. Tudo porque li um texto dizendo que a internet não deixa as pessoas mais isoladas, que também serve para aproximar e possibilitar contato humano que não seria possível de outras formas, e sempre há esse debate, né? A internet aliena, a internet aproxima, a internet deixou as pessoas superficiais, a internet permite aprofundar nossos relacionamentos, a internet mexeu no meu queijo, a internet stole my ice cream, etc, etc.
 
Mas a internet nada. A internet não. É como glorificar o martelo por tornar possível pendurar um quadro na parede ou culpá-lo por bater no dedão de alguém, em vez de atribuir responsabilidade à mão que o manuseia. Internet também é ferramenta, que usamos inclusive para lavar nossas mãos e achar que não temos nada a ver com isso.
 
Então escrevi essa pequena crônica e resolvi não publicar somente na newsletter, mas em aberto, lá no Medium, pra dizer que a internet, ela não me isolou. Eu me isolei porque quis.
 
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Esta semana fiz a seguinte pergunta no Twitter: “Qual foi a primeira coisa que te fez sorrir hoje?”, que exige um cadinho de esforço da memória da pessoa e abre margem para histórias interessantes.
 
Entre as respostas, disseram que foi um gato fazendo bagunça, ou os filhos falando algo fofo, ou uma senhorinha dizendo “você tem um sorriso lindo”, ou descobrir que uma doença não progrediu; mas também gente dizendo que ainda não havia sorrido no dia.
 
Eu também não tinha sorrido, pelo menos não até ler as respostas e imaginar sorrisos brotando em lábios alheios, por motivos que também me fariam feliz. Ou seja, minha reposta à minha própria pergunta foi o que as pessoas responderam pra mim.
 
Porque às vezes a gente precisa CRIAR um motivo para sorrir. Nem que seja arrumando um jeito de se contagiar pelo sorriso dos outros.
 
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Há um tempo atrás, lá pelo final da minha adolescência, eu sonhava em um dia escrever para a Superinteressante. Eu nem sabia o quê, mas queria ser publicada lá. Daí os anos passam e BAM a revista me convida para escrever um conto de ficção científica pra eles! Acho que posso ficar felizinha pelo menos por isso, né?
 
O conto saiu na edição de novembro, se você tiver interesse. É um conto futurista, mas cheio de nostalgia: é uma história que imagina como será o futuro quando as adolescentes dessa nossa época tiverem idade para serem bisavós. Como será o mundo? Ainda existirá internet, cidades, energia elétrica, carros? E como serão os adolescentes desse futuro distante? Spoiler: a adolescente da história se chama Tuitéria.
 
O conto foi ilustrado pelo William Santiago, que tem umas aquarelas LINDAS. Dá uma olhada no trabalho dele.
 

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Mensagens de fofura motivacional pra você que está participando do #NaNoWriMo (para o caso de você ter chegado agora, dei algumas dicas na newsletter anterior):





 
Ilustrações de Emm Roy que a Ana Paula postou lá no grupo de Bobagens ♡ Tá lindo demais ver as leitoras e leitores empolgadíssimos com esse desafio e tô torcendo muito por cada um nessa jornada rumo às 50 mil palavras :)
 
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Pergunte à Escritora

 
Dediquei a edição #89 a responder todas as perguntas que leitoras e leitores me fizeram quando eu disse que podiam me perguntar QUALQUER COISA. Fui soterrada por quilos de perguntas das mais variadas e achei que seria DE BOAS responder tudo numa edição só, mas rá-rá-rá que ingênua que fui.
 
LÓGICO que não dei conta de responder tudo de uma vez, então prometi que as perguntas não publicadas seriam respondidas em outra oportunidade. Resolvi então transformar isso numa SEÇÃO, para eu ir respondendo as perguntas aos poucos, sempre que tiver um espacinho. Acho que pode ser divertido.

 
Você pensa em ideias para escrever, cria as estruturas, pensa em bons ganchos, mas acaba não escrevendo? Na verdade, se eu penso numa ideia e consigo pensar na ESTRUTURA, geralmente eu escrevo sim. Nossa, aí é que eu escrevo com gosto.
 
Por que não, se escrevo até quando tenho uma ideia meio bamba, só pra ver onde vai dar? Quando a ideia estiver materializada em palavras na minha frente, posso perceber que ela é uma merda, mas aí eu vou ter a chance de reescrever, de mudar, de melhorar. Não dá pra ficar melhorando uma ideia só na cabeça.
 
Porque só dá pra julgar se uma ideia é boa ou não quando ela está escrita. Descartá-la antes disso é bobagem e um tremendo desperdício.


Qual foi a coisa mais incrível que aconteceu na sua vida, mas não aconteceu necessariamente com você? Ver mulheres empolgadas para escrever ou inspiradas por algo que escrevi, porque se identificaram, porque descobriram que também podem. Ver mulheres próximas criando coisas incríveis, como a Jarid e seu Clube de Escrita, como as minas do Lugar de Mulher, como as Capitolinas lançando livro, como a Jules do Think Olga conduzindo campanhas como Chega de Fiu Fiu e #PrimeiroAssedio, como tantas outras com projetos transformadores nas áreas sociais, artísticas ou de tecnologia que eu poderia ficar aqui citando e citando e citando até afrouxar sua barra de rolagem. Ver mulheres e meninas cada vez mais conscientes, cada vez mais exigentes, não engolindo qualquer discurso e se fazendo ouvir, porque essa correnteza de vozes ninguém mais consegue parar.
 
Me sinto incrível mesmo quando a vitória é das outras, por sentir que o avanço delas carrega possibilidades pra mim e que faço parte de um momento muito importante na história. Um ponto de virada. Então não aconteceu SÓ comigo, mas sinto que faz parte da minha vida. Porque vejo tudo isso e sinto que não estou observando isso de longe, mas que estou bem no meio, no olho do furacão.


Tem algo que você gostaria de me perguntar? Só responder a este e-mail perguntando sobre qualquer tema e sua perguntinha vai para a lista, que posso responder a qualquer momento, quando você menos esperar, em um próximo Pergunte à Escritora mais perto de você. 

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Vamos marcar algo amanhã? Putz, acho que não vai rolar. Tá corrido, né? Pois é, tenho um encontro inadiável com minha ansiedade.

Sabe como é, a gente vai passar a semana agarradinha.
 

Beijos solitários,
 
Aline. 
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