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1 ficção e 3 indicações.
Bobagens Imperdíveis

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 115
ficção / dicas / livros

Inteligência está em falta no Universo


Sandelin havia acabado de cair em outro planeta. Talvez seja difícil acreditar, já que nem eu e nem você tenhamos passado por isso antes. Mas Sandelin estava, de fato, passando por isso e, ainda assim, achava difícil acreditar.

Preferiu ficar imóvel. Prendeu a respiração, em pânico. Não aguentou mais que dez segundos. Sorte que a atmosfera do planeta era agradável e não morreu instantaneamente ao respirar ali, como pensou que aconteceria.

Olhou com medo ao seu redor e estranhou praticamente tudo: da vegetação que cobria toda a superfície até o céu multicolorido, que se alaranjava no horizonte.

“Puta merda, estou mesmo em outro planeta.” 

Não havia nenhuma nave ou tripulação espatifada ao seu redor, porque, é claro, as naves não conseguiam chegar assim tão longe. Os cientistas haviam descoberto que, para chegar em outros planetas, possivelmente habitados, era preciso escavar túneis. O que era bem mais complicado do que perfurar uma superfície com britadeira; é de espaço-tempo que estamos falando, afinal.

Sandelin era uma figura que não faria falta, julgaram. Isso era quesito essencial para escolher quem faria a viagem, já que a passagem de volta não estava inclusa no pacote devido a impossibilidades técnicas. Não se sabia se os cientistas estavam trabalhando nisso no momento.

Então isso: Sandelin havia caído em outro planeta. Levantou devagar, prestando atenção em tudo ao redor. A única coisa que conseguia ouvir era uma frequência constante e aguda, algo como uma interferência. Um som alto e irritante, ondas estridentes, um zumbido eterno.

“E agora, o que eu faço?”

Estava em um ambiente desconhecido, sem missão a cumprir, sem instruções de como se virar naquele pedaço de fim de mundo. Aparentemente, os cientistas não se preocuparam com isso; já julgavam otimista a previsão de que Sandelin chegaria com vida a algum lugar, qualquer que fosse.

O problema é que chegara; e agora encarava com desespero a solidão de um planeta inóspito.

Para Sandelin, os planetas não passavam de bolotas no espaço às que se davam nomes engraçados. A posição deles também determinava se alguém seria um grande teimoso ou só um fracassado qualquer. Mas pisar em um planeta distante só para dizer que pisou era inutilidade demais. Sandelin achava improvável que encontraria algo além de plantas esquisitas e nada. Nada vezes nada.

Alguns diziam que existia a chance de haver vida inteligente em outros planetas. Mas Sandelin sabia que era besteira. Acreditava que só existia uma forma de vida inteligente em todo o Universo e que a representava.

As Escrituras não mencionavam nenhuma outra espécie como cabeçudos com tentáculos ou rastejantes desintegradores de células, que eram vistos apenas na ficção e em estórias para colocar medo nos pequenos. Se existissem, as Escrituras certamente falariam deles. Isso encerrava a discussão.

Você deve imaginar o que vem a seguir: Sandelin deu de cara com um habitante daquele planeta, para seu completo pavor e para a ruína de suas crenças. Paralisou, sua única reação possível, enquanto a criatura se aproximava, caminhando em meio ao mato alto.

O habitante era menor, todo preto, a cara achatada com grandes olhos amarelos. Possuía cinco membros, mas um deles não tocava o chão. Ficava suspenso no ar e parecia ter vida própria. Chicoteava no ar, de um lado para o outro, como se ansioso – ou será hostil?

A criatura parou na frente de Sandelin e começou o que parecia uma tentativa de comunicação, numa língua incompreensível. Um idioma simples, com poucos fonemas, mas longe de ser rudimentar. Encarou Sandelin, esperando uma resposta.

Tudo o que Sandelin conseguiu balbuciar foi: “não me coma”.

A maior demonstração que aquela espécie de fato se tratava de uma forma de vida inteligente foi a misericórdia. Era sinal de que havia entendido a mensagem. Uma criatura irracional o teria destroçado, com aquelas garras e dentes. Em vez disso, continuou a se comunicar. Tentava estabelecer um diálogo. Amizade?

Mas antes do próximo passo naquela relação que começava a se formar, a criatura saltou para o alto de uma das enormes plantas que havia no local, com uma habilidade que desafiava a lógica rasa de Sandelin.

Não só se tratava de uma forma de vida inteligente, como era, certamente, um organismo superior e mais sofisticado. Sandelin ficou olhando com espanto para a figura negra, que estudava sua presença com curiosidade lá do alto, e, de repente, achou injusto que houvesse no Universo uma espécie tão privilegiada quanto aquela.

“Então é isso. A história de que a nossa existência é o centro de tudo não passa de uma grande mentira. Não estamos sozinhos no Universo.” 

Sandelin, com a mente imersa nesse pensamento, nem se deu conta da ameaça que se aproximava. Tudo o que conseguiu ver foi uma criatura muito maior, bípede, carregando uma arma enorme e falando em uma língua ainda mais estranha. Então foi atingido por um tiro e tudo ficou embaçado.

Agora sim, estava diante da forma dominante daquele planeta.

•••

As cigarras cantavam alto, mas Estefânia nem ligava mais. Fim de tarde quente, era normal. Não era normal o clarão que borrou o céu por uma fração de segundos. A boca ocupada com um pedaço de manga, a língua chupando fiapos entre os dentes, o olhar desconfiado no horizonte.

– Diacho.

A garota foi lá ver o que era, não sem antes pegar sua espingarda de chumbo. Atravessou o matagal diante da casa e caminhou fazenda adentro, em direção ao local onde viu a luz.

Foi perto de um abacateiro, que a guiou até ali. À distância, viu um bicho de forma indefinida tentando pegar seu gato que, com ligeireza, subiu num galho da árvore.

– Arre, espera aí, Celestino, que eu já tiro essa coisa daí!

Atirou sem pestanejar. Sabe-se lá que coisa era aquela. Só não queria chegar perto, a menos que o bicho não se mexesse mais.

Avançou no mato alto até o lugar onde a coisa caiu. Era uma criatura bizarra. Tinha metade do seu tamanho, o rosto alongado, o corpo curvado como a lâmina da foice de roçar mato. Coisa feia dos diabos. Definitivamente, não era humano, mas Estefânia não sabia que animal era aquele. E olha que de animal ela entendia.

Alguns acreditavam que pudesse existir vida inteligente em outros planetas. Mas Estefânia sabia que era besteira. Trepou na árvore, pegou o gato e rumou de volta para casa. Chupou os dentes com a língua, afastando as preocupações da cabeça. Por mais estranho que pudesse ser aquilo, não podia ser um alienígena. Ela sabia: essas coisas não existem.

 

Indicações do coração


:: Na edição passada falamos sobre apocalipse; nesta vamos falar de “soft apocalipse”: é o nome do álbum da cantora Marina Melo, que descobri por acaso no canal da TV Folha, cantando ao vivo num prédio abandonado. “Isso é diferente”, foi o que primeiro veio à minha mente quando ouvi o som dela, embora de primeira eu não conseguisse definir se eu gostava ou não. A música meio que desativou por um momento meu filtro mental de “gostei” e “não gostei” e, despreocupada em avaliar por esta perspectiva, pude realmente ouvir. Ao ouvir tão atentamente, a música, a voz dela e suas letras realmente penetraram meu crânio e de lá não saíram. Fiquei com a música dela na cabeça e, assim, descobri que gostava, a ponto de querer que você ouça também. Você pode ouvir “Soft Apocalipse” no Spotify.

A cantora Marina Melo sentada no topo de um prédio, olhando para baixo, vestida de preto e botinas

:: Evan Puschak é o apresentador e criador do canal Nerdwriter, sem dúvidas o meu canal preferido no mundão de conteúdo do Youtube. A arte é a protagonista de seu canal; em seus vídeos, Evan seleciona filmes, pinturas, seriados, literatura e música, e faz uma análise muito inteligente sobre cada obra, apontando significados e pontos de vista sobre aquilo de uma forma que não tínhamos pensado. Um canal para nos aproximarmos daquilo que já gostamos e para conhecermos coisas novas para apreciar. Todos os vídeos são lindos, bem editados, envolventes; e o texto escrito e narrado por Evan para cada vídeo é sutil, inteligente, realmente aprofunda o assunto. Vale muito a pena conhecer e é difícil não fazer uma maratona com seus vídeos ao entrar no canal pela primeira vez (como aconteceu comigo há um tempo).

Imagem da vinheta do canal: leite sendo derramada numa xícara de café sobre um fundo azul; dentro da xícara, lê-se: "the Nerdwriter"

:: Julio Cortázar já é um dos meus escritores favoritos. Depois de “Bestiário”, li “Histórias de Cronópios e Famas” e fiquei fascinada, extasiada, absurdada com a escrita fantástica do argentino, lendo e relendo cada conto antes de passar para o próximo, com dó de acabar a leitura rápido. Ele cria um sentido próprio para o universo e para o cotidiano, inventa criaturas (os famas, que dançam catala e trégua; os cronópios, verdes e úmidos, que quase nunca têm filhos; as esperanças, micróbios resplandescentes) e com isso mostra a falta de sentido existente em nosso próprio mundo. De acordo com a Olivia, que foi quem me apresentou à escrita de Cortázar, um bom caminho para se percorrer na obra do autor é: “jogo da amarelinha é demais. depois bota na lista todos os fogos o fogo. e alguém que anda por aí. e todos os outros contos woo. aí quando achar que já está hardcore cortázar, você pode ler 62 modelo para armar. mas só quando já estiver cortázar-maníaca, porque senão o livro não vai fazer o menor sentido (ele não faz sentido anyway, mas né)”. 

Euzinha segurando a capa do livro com cores psicodélicas: 'Julio Cortázar: Histórias de cronópios e de famas'
 

É hoje!


Está no Rio de Janeiro? Tenho uma dica de algo bem legal para fazer hoje: aparecer na Blooks Livraria (Praia de Botafogo, 316), às 15h, e deixar eu rabiscar seu exemplar do meu livro As águas-vivas não sabem de si! Vai rolar um bate-papo, troca de ideias e de abracinhos. Vai ser mó legal ver você por lá.

Rabiscarei livros no Rio

•••

Como tem muita gente nova no bonde de Bobagens Imperdíveis (se você está chegando agora, olá, fique à vontade, sinta-se em casa) vale dizer que este é um espaço onde às vezes conto historinhas malucas (como a desta edição), às vezes falo de coisas da vida, às vezes indico coisas de que gosto, às vezes falo de tudo isso junto.

Então não estranhe se algumas vezes você abrir o e-mail e eu estiver falando de coisas que não existem. Acontece.

Lembrando: abri um formulário para você me fazer perguntas sobre o que quiser e que responderei qualquer dia desses num vídeo. Deixe sua pergunta aqui.

Lembrando (2): se gostou desta edição, sempre pode compartilhar internet afora e para outros planetas através deste link.

Até a próxima, viajante espacial.

Beijos alienígenas,

Aline Valek

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