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"Toda produção é uma destruição."
Bobagens Imperdíveis

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 124
vida / gente / internet

gif animado: homens segurando maletas passam em fila diante de uma parede com janelas. A fila é infinita, o passo é constante.


Hoje serei rápida. Tão rápida quanto as notícias que correm nas timelines, quanto as novas tecnologias surgem, quanto um meme, quanto o nascimento e morte de um novo produto, quanto o tempo que a gente consegue esperar o “skip ad” surgir antes do vídeo que realmente queremos ver.

Produtividade tem sido a palavra do momento. Um monte de gente tem escrito sobre, porque tem um monte de gente querendo ler sobre, porque todo mundo tem perseguido a danada produtividade como se fosse um Santo Graal.

Eu mesma escuto muito a pergunta: “como você faz para ser tão produtiva?” e eu já não sei mais se a resposta faz sentido, porque veja, eu só estou sentada no parque tentando decorar o nome dos cachorros que brincam na minha frente, enquanto conto histórias pra mim mesma que eu nunca vou publicar.

Olivia contou que em suas andanças na internet deu de cara com um texto com o título “como transformar estresse e ansiedade em produtividade”. Quem tem essa receita descobriu a matriz energética mais eficiente do mundo: é pegar o efeito colateral dessa vida louca que levamos, trabalhando sem parar, e transformar em combustível para produzir mais, ainda mais! Não é incrível? Nunca vai faltar produtividade desse jeito.

“É o cúmulo da loucura dos tempos modernos”, escreveu Olivia, “a necessidade de transformar tudo em produção”.

Mais que produzir, o lance é também se sentir alguém produtivo. Esse sentimento está ligado a produzir coisas que necessariamente têm valor para a sociedade: quando não estou produzindo coisas que gerem dinheiro, vem a sensação que sou inútil. Que não estou fazendo nada.

E no nosso mundo não é tudo que tem valor. Fazer um power point para convencer um cliente a investir dinheiro numa campanha publicitária para vender mais barbeador tem mais valor que fazer cabaninhas com vassouras e lençóis para o filho brincar no meio da sala. Vender seu tempo num escritório para ficar oito horas diante de um computador tem mais valor que lavar seu próprio banheiro. Em um caso estaremos sendo produtivos e no outro… apenas fazendo nada?

“Ao escolher valorizar alguns bens e serviços e não outros,” escreveu Alex, “ao escolher responsabilizar algumas pessoas e não outras, ao escolher incentivar algumas atividades e não outras, estamos revelando nossa escala de valores e construindo um mundo à sua imagem e semelhança.”

Vi esta manhã uma notícia sobre gente na Austrália que ficou mais de 24 horas numa fila para comprar o novo iPhone. Sobre a foto, com os consumidores alegremente cansados segurando suas caixinhas novas como troféus, alguém comentou que até as pessoas “vencedoras”, as que conseguiram ser as primeiras a comprar o aparelho, pareciam sair um tanto derrotadas.

Parece que tem sido a maior polêmica o lançamento desse novo iPhone, especialmente porque resolveram que ele não teria mais entrada para fones de ouvido, que agora seriam dois trocinhos sem fio que talvez, para não se perderem, venham com tarrachinhas para prender no buraco da orelha, feito brincos.

Assisti ao vídeo de apresentação desse novo iPhone, com uma percurssão moderninha e textos pipocando na tela mandando você não piscar enquanto apresenta todas as incontáveis novas funcionalidades e vantagens do modelo. 
 
Um vídeo para você pensar “uau, é o futuro!”, quando na verdade aquilo deixou de ser sobre tecnologia faz tempo, se o que eles fabricam agora são jóias com conexão à internet. É tudo sobre status e sobre quem pode ou não ter acesso a ele, mesmo que na forma de pequenos fones pendurados no ouvido. Modernos, sexy, um charme!

(e é claro que é preciso ser produtivo, muito produtivo, para merecer ter um desses!)

Fora as minhas retinas queimadas após assistir o vídeo (sério), não fiquei muito impressionada, talvez por sentir que ele não falava comigo. Como se aquilo fizesse parte de um outro planeta, distante, absurdo como ficção científica. 

E é engraçado pensar que o trabalho que me permitiu comprar um iPhone foi quando eu escrevia, entre outras coisas, roteiros para convencer as pessoas a comprar carros com IPI zero (aliás, eu adorava o fato de que no fantástico mundo da propaganda as pessoas compram carro por impulso e não resistem porque NOSSA TÁ MUITO BARATO! E ainda dizem que foi o gerente, apenas o gerente, que ficou maluco).

Desde aquela época, não mudei de celular. É o mesmo, mas agora rachado atrás, como terra seca no sertão, já sem atualizações disponíveis porque querem que eu compre o último lançamento, esse ultra high mega power à prova d’água com tela 25% mais brilhante e na cor super preta.

Sem acesso a aplicativos novos ou a atualizações daqueles que uso, percebo que meu celular ainda funcionaria uns bons anos se não fossem esses putos dizendo que não, agora ele é obsoleto. Assim como um dia talvez sejam os fones de ouvido com fios, que não encontrarão mais onde sejam plugados. Obsoletos, desatualizados, como também ficamos nós se perdemos o meme do momento, se não consumimos os filmes e séries sobre os quais todo mundo está falando, obsoletos como quem não segue o fluxo.

A busca incessante por produtividade é, na verdade, a luta contra nossa própria obsolescência. 

Produzir mais e mais para provarmos que ainda temos valor, que somos úteis, que ainda estamos no jogo. Produzir para não sermos esquecidos, trocados, substituídos por alguém que faça o mesmo que nós e melhor e mais rápido e para mais gente.

Produzir mais porque o que foi feito ontem (seja uma roupa, uma tecnologia ou um texto) já envelheceu, não serve mais, ficou obsoleto.

Por trás disso, o medo de ficar para trás. Que só existe por causa da comparação da qual não conseguimos fugir se sempre tão conectados e já é inevitável não olharmos para o que o coleguinha está fazendo, medi-lo com a nossa régua e nos motivar a fazer mais para ter tantos likes quanto, ter o abdômen mais travado, mais realizações no currículo ou uma lista de leitura maior.

Jogamos pelas regras desse nosso mundo, que é competitivo em sua essência, quando só conseguimos olhar o outro não para enxergar um ser humano, mas alguém a ser superado.

A armadilha, no entanto, é que não importa o quanto a gente produza e gere valor, sempre estaremos caminhando na beira da obsolescência. Não importa quão moderno e futurista e cheio de gueri-gueri seja um celular; ele um dia também ficará ultrapassado.

Assim como eu, de alguma forma um pouco mais obsoleta desde que comecei a produzir este texto. E nem adiantou ser mais rápida.


 

Um urso, 
porque sim


 Imagem de um urso sentado sobre a grama como se fosse uma pessoa. Ele acena com a pata esquerda e olha para a câmera, parecendo sério.
 


Estou lendo


“Existem sonhos simbólicos e realidades que simbolizam tais sonhos. Ou ainda, existem realidades simbólicas e sonhos que simbolizam tais realidades. O símbolo é, por conseguinte, o prefeito honorífico do universo da minhoca. No universo da minhoca não se estranha que uma vaca leiteira esteja à procura de um alicate. Em algum momento a vaca leiteira há de conseguir o alicate. O problema não era meu.

Suponhamos agora que a vaca estivesse me usando para obter o alicate. (…) Eu pergunto à vaca leiteira: por que quer um alicate? A vaca responde: porque estou faminta. pergunto: e por que precisa de um alicate quando está faminta? A vaca responde: para dependurar no galho do pessegueiro. Pergunto: por que no galho do pessegueiro? Responde a vaca: mas não lhe dei o ventilador em troca? Seria uma sucessão interminável de perguntas e respostas. E, nunca terminando, eu me veria aos poucos odiando a vaca, e vice-versa. Esse é o universo da minhoca. Para escapar desse universo é preciso sonhar um novo sonho simbólico.” 


– Haruki Murakami, em “Caçando Carneiros”. 
 


Algumas infos reveladoras
sobre quem lê Bobagens


Na última edição, lancei um formulário para conhecer os leitores da newsletter. Tenho lido aos poucos, uma por uma, e me divertido, me maravilhado e me surpreendido com as respostas.

Ainda nem terminei de ler tudo, mas aí vão alguns dados gerais que me pegaram de surpresa e que achei relevante compartilhar com você.

A tendência política dos leitores me surpreendeu (achei que bem mais gente choraria em posição fetal):

 Um gráfico de pizza. 64,7% dos leitores se consideram de esquerda; 26,3% consideram que sua posição política é chorar em posição fetal. As outras opções de resposta: direita, não tomo partido e política é o que me permite ganhar fortunas
11 pessoas me dariam um match.

Se fosse possível morar no universo de um livro, a maioria das pessoas se mudaria para o mundo de Harry Potter. Realmente, tá puxado viver num mundo cheio de trouxa e nenhum bruxo pra compensar.

A maioria também escolheu o gato como animal que melhor representa seu espírito. Um salve para os derrubadores de copo, para os dorme-muito, para os acorda-pra-me-alimentar-fi-da-puta, para os arranha-porta e para os contorcionistas da soneca que seguem esta newsletter.

Muita gente gostaria de ser amiga da Lisbeth Salander. Fiquei surpresa, já que ela não é exatamente amigável.

Fora os 11,3% de leitores que não praticam astrologia, os signos mais frequentes entre quem lê Bobagens foram Leão (10,5%), Libra (12,8%) e Touro (9%), que são respectivamente meu signo, meu ascendente e minha lua. Sério. Fico no aguardo de explicações astrológicas pra isso na minha mesa.

 Um gráfico de pizza, indicando 10,5% dos leitores são de Leão, 12,8% de Libra, 9% de Touro, 8,3% de virgem, e 11,3% responderam que "não praticam astrologia".
•••

Se parecer que eu sumi, não se assuste. Estou apenas recolhida na minha cabana, onde pratico arco-e-flecha nos intervalos entre a escrita e a observação de dança das árvores.

É uma atividade particularmente complicada de acompanhar, que exige paciência e muita atenção para não perder nenhum movimento, que leva o tempo de uma estação inteira para acontecer. São dançarinas lentas, mas tão dramáticas.

Vou ficar longe das redes sociais por um tempo, mas você sempre podeespalhar esta newsletter por aí, como folhas ao vento. Se bater saudade ou vontade de ler uma bobagenzinha, sirva-se aqui. Os textos do meu blog também estão sempre às suas ordens.

Produzindo ou não, o planeta continuará girando sob nossos pés. Esse movimento faz tudo mudar, aos poucos, como o lugar onde bate o sol na sua sala dependendo do dia do ano, ou como o movimento dos braços e pernas das árvores dançarinas. Porque mesmo aquilo que parece parado, se você prestar bem atenção, não para de mudar.

Beijos obsoletos,
 
Aline Valek

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