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A lista que não podia faltar.


2015 acabando, para a felicidade de muitos, e é essa época deliciosa em que o mundo vira um grande Buzzfeed com listas para todos os lados e eu é que não deixaria de embarcar nessa.
 
Preparei uma listinha com os melhores livros que li em 2015, mas meu deus QUE SOFRIMENTO foi montar essa lista. Porque veja, esse foi o ano em que eu li melhor, ou seja, livros de muito mais qualidade, e o fato de ter sido o ano em que mais li coisas escritas por mulheres talvez tenha a ver com isso. Ou porque eu fui mais criteriosa na minha curadoria, procurando por livros diferentes do que eu costumava ler e que não fossem os “hypes” do momento.
 
Então é claro que a lista que você verá a seguir é muito pessoal, não é nenhum tipo de imposição do que os outros deveriam achar bom, como muita gente costuma interpretar listas. Fica como dica do que você pode buscar para ler em 2016, se algo na minha listinha for novo pra você, olha que legal.
 
Ah, também pode parecer que eu li apenas e-books (como você verá adiante), mas na verdade li tanto livros impressos quanto digitais, embora os e-books tenham sido maioria na lista dos meus favoritos. Mas não foram todos! Na verdade, 2 livros dessa lista eu li na versão impressa, mas como eram emprestados e eu os devolvi antes de montar essa edição, eu coloquei a capa dentro do Kobo de forma meramente ilustrativa, hehe.
 
Foi muito, muito, MUITO difícil selecionar esses livros. Porque foram tantos livros maravilhosos, como eleger os melhores? Avaliei minhas leituras seguindo os critérios: Linguagem (se o livro possui uma linguagem marcante); História (o nível de originalidade da narrativa e do tema); Desenvolvimento de Personagem (se possui personagens bem construídos, multifacetados); Inspiração & Sentimento (se me tocou de forma especial); e Riqueza de Referências (se o livro não se esgota nele mesmo, se dá vontade de ler de novo para perceber os detalhes ou uma nova perspectiva).
 
Mesmo se fosse uma lista de dez, eu ainda deixaria ótimos livros de fora. Mas a proposta era escolher sete, até pra não prolongar muito a newsletter, então meu coração ficou apertadinho.
 
Entre os livros maravilhosos que acabaram não entrando na lista, estão os de ficção científica “A Mão Esquerda da Escuridão”, da Ursula Le Guin e o “Estação Onze”, da Emily St. John Mandel. Também merecem menção honrosa os clássicos (com motivo) Frankenstein, da Mary Shelley (sobre o qual já escrevi aqui) e Moby Dick, de Herman Melville (que analisei aqui).
 
Então que venham os sete escolhidos:
 
 
7. Eu lia o nome do livro como “Os Mil Outonos de Jeicobi Dizoéte”, até eu falar para um amigo e ele me dizer que o certo seria “Iácob Dizut”. Holandês. No próprio livro há uma dica da pronúncia, quando os japoneses o chamam de Dazuto, que acho muito mais daora.
 
Esse romance histórico de David Mitchell se passa no Japão na transição do século XVIII para o XIX, em um porto na baía de Nagasaki, onde os holandeses puderam se estabelecer para fazer comércio com os japoneses. É lá em Dejima que Jacob desembarca, com a missão de corrigir as contas da Companhia Holandesa das Índias Orientais nos últimos anos para apurar desvios e acabar com o oba oba da corrupção.
 
Mas Jacob não é assim tão mais moral que seus colegas holandeses, porque ele mesmo esconde seus segredinhos. É proibido levar livros e artigos cristãos para o Japão, mas Jacob consegue entrar em Dejima MALOCANDO um saltério (um livro de salmos); além disso, ele acaba nutrindo uma paixão secreta e proibida pela parteira Orito Aibagawa, apesar de ter uma noiva esperando por ele na Holanda.
 
O autor é inteligente ao começar o livro nos apresentando a Orito, em vez de Jacob, com a chocante narrativa de como a parteira conseguiu salvar o filho do magistrado em um parto difícil – Orito teve que puxar o bebê pelo braço, que saiu antes da cabeça e, olha, a imagem que essa cena cria na cabeça é um negócio difícil de esquecer.
 
Fiquei com medinho achando que o livro desembocaria para uma narrativa do “herói salvador branco”? Fiquei sim. Jacob tem tudo para ser o branco que chega, conquista o amor de uma nativa e luta para salvá-la do seu próprio povo, mas essa possibilidade desmorona ao decorrer dos capítulos; Jacob não tem nenhuma vocação para herói, se diante de uma situação de conflito a sua melhor reação é não fazer nada. O que acho ótimo: mostrar os grandes feitos de um herói definitivamente não é a vibe deste livro.
 
A narrativa passa pelo ponto de vista de outros personagens, como a de um intérprete japonês, o capitão de um navio inglês e da própria Orito. Em certo ponto da história, ela é entregue aos cuidados de um sacerdote esquisitão que tem um templo misterioso nas montanhas. Nesse lugar, as mulheres são obrigadas a ter relações sexuais com os monges com o único fim de engravidarem – o que tem total relação com o tema de “O Conto da Aia”, do qual falo adiante – e os mistérios que rondam esse templo e a ansiedade de ver Orito logo fora dali foram o ponto alto do livro, na minha opinião.
 
São muitas as histórias que se cruzam em “Mil Outonos” e não há tanto espaço para a previsibilidade, apesar de ser um livro extenso, o que normalmente é uma oportunidade para o autor encher linguiça. Mas se há linguiça, ela é muito bem temperada com personagens bem escritos e com as referências históricas cuidadosamente costuradas ao enredo, tanto que a extensão do livro chega a ser esquecida quando você está imerso nas tretas que rolam em Dejima.

 
 
6. Esse é um daqueles livros que é melhor não revelar muito sobre a história para não estragar a experiência de quem ainda vai ler. Transitando entre a ficção científica, o realismo fantástico e o suspense, “A Invenção de Morel”, escrito pelo argentino Adolfo Bioy Casares, foi uma leitura surpreendente em todos os sentidos.
 
Em resumo, é a história de um cara condenado à prisão perpétua que resolve fugir e acaba parando numa ilha deserta onde – dizem – pessoas foram mortas por uma terrível epidemia. De fato há construções abandonadas, máquinas que ele não sabe muito bem o que são ou para que servem e nenhum sinal de gente por lá.
 
Mas um dia os habitantes da ilha começam a aparecer e cuidar de seus assuntos, deixando o narrador boladão, especialmente porque ele percebe que ninguém consegue vê-lo.
 
Ele ficou invisível? Foi parar numa dimensão paralela? Morreu e está no purgatório? É um viajante no tempo? Quem é Morel? O que diabos ele inventou? O que aquelas pessoas estão fazendo na ilha? As possibilidades começaram a fervilhar na minha cabeça, lembrando muito a época em que eu assistia Lost, outra história onde há uma ilha cheia de mistérios; mas, ao contrário dos roteiristas da série, o autor de “A Invenção de Morel” conseguiu me apresentar um desfecho que não decepcionou.
 
Pode ser um livro pequeno em espessura, mas é grande em sua dimensão literária. Tanto que não cabe nem em um gênero só.
 
Eu já estava lá pela metade do livro quando resolvi ler a orelha, com um texto dizendo algo sobre ser uma obra que justifica ele ser um celebrado escritor do gênero policial; mas ué? Não tinha nada de suspense policial na história até então! Aliás, no ponto que eu estava na história, eu ainda não tinha me decidido em qual gênero encaixar “A Invenção de Morel”, mas quando terminei a leitura, conclui que era melhor não chegar a uma conclusão.
 
Lembrei de uma entrevista em que Ursula Le Guin fala sobre como esses rótulos podem acabar limitando a obra: “quando as características de um gênero literário são controlados, sistematizados e impostos, acabam se tornando limitações em vez de possibilidades”. É quando a previsibilidade substitui a qualidade, quando um gênero se transforma numa fórmula.
 
E aí as pessoas parecem mais preocupadas em validar as obras e autores que se encaixam em determinado gênero para ser “ficção científica de verdade”, ou “suspense policial de verdade”, como se repetir padrões fosse mais importante que contar uma boa história.
 
Mas se precisar colocar “A Invenção de Morel” (que inclusive faz referência ao clássico de ficção científica “A Ilha de Dr. Moreau”, de H.G. Wells) em alguma caixinha ou categorização, eu não colocaria nem em um gênero, nem em outro: eu rotularia como boa literatura. Ponto.

 
5. Em seu aniversário de 26 anos, recém-mudada para um apê no sul da Califórnia onde vai morar com o marido, Dana sente uma estranha tontura e quando vê está em outro lugar e em outro tempo. De repente, não é mais 1976. De repente, ela está em Maryland, no início do século XIX.
 
Contra sua vontade e na contramão de qualquer explicação ou lógica, sem nem precisar de DeLorean ou cabine telefônica que seja, Dana se torna uma viajante no tempo. Nem ela nem nós ficamos sabendo exatamente como isso é possível, mas logo vai ficando claro por que isso acontece: toda vez que Dana é tragada de volta ao passado, ela se vê numa situação em que um garotinho está correndo risco de morrer e ela é impelida a salvá-lo.
 
O que ela descobre eventualmente é que esse garotinho, Rufus, é seu ancestral. Sua própria existência passa então a depender da garantia de que Rufus sobreviva, e cabe a ela a espinhosa missão de não deixar que ele morra pela própria estupidez.
 
Um detalhe importante: Dana é uma mulher negra. Rufus, um sinhôzinho branco. Em pleno período da escravidão americana.
 
Essa é a premissa básica de “Kindred”, um livro que também vai além dos rótulos e mistura romance histórico e ficção científica para mostrar como as relações entre raça e gênero entranhadas no passado acabam influenciando e definindo o futuro – além de trazer, através das escolhas de Dana, o questionamento: as ações de uma pessoa podem mudar esse cenário?
 
Dana, assim como os protagonistas dos livros anteriores da lista, também é uma estrangeira tentando se adaptar, entender e sobreviver ao lugar onde vai parar. Em “Os Mil Outonos”, há o conflito cultural entre ocidente e oriente em um personagem holandês que vai parar no Japão; em “A Invenção de Morel”, a estranheza de estar perdido numa ilha cheia de mistérios; em “Kindred”, a estranheza e o conflito estão em Dana, uma mulher livre e independente dos anos 70, lidando com a cultura racista e a realidade escravocrata do século XIX.
 
Não sendo capaz de entender ou deter as forças cósmicas que a fazem viajar no tempo, só resta a Dana assumir a responsabilidade de cuidar de Rufus. Mas ela quer fazer o melhor proveito disso. Tentar influenciá-lo para o bem. Tentar impedir que ele cresça e se torne um homem branco babaca e racista como a sociedade esperava que fossem os homens brancos daquela época.
 
Mas não é assim tão simples. Mesmo tentando fazer a coisa certa, Dana se vê num looping de desastres que a leva a fazer escolhas cada vez mais difíceis – e atitudes inesperadas. É impressionante como Octavia Butler vai conduzindo a história sem parar em lugares comuns, nos deixando com aquela incômoda sensação de insegurança diante das incertezas da história.
 
Tudo o que dá pra saber – porque aprendi com Dana – é que é bom estar agarrada a uma necessaire com itens de primeira necessidade quando sentir que vai fazer AQUELA viagenzinha ao passado; e que ser mulher e aparecer usando calças em 1800 e bolinha não facilita muito as coisas.

 
4. Ai meu deus, esse livro. Fui em “The Art of Asking” (ou “A Arte de Pedir” em português, o que sempre me faz ler como “A Arte de Peidar”, dsclp) achando que ia encontrar uma coisa, encontrei outra e encontrei mais.
 
A expectativa é que seria uma versão escrita e estendida da já famosa palestra de Amanda Palmer no TED Talks. Um livro onde eu encontraria um pouco mais sobre essa louca experiência de ser artista independente em época de internet.
 
Mas Amanda coloca muito de si no livro. Se coloca inteira. Nua. Como na vez que ela conta no livro em que, num encontro com fãs, ela tirou a roupa e deixou que eles a rabiscassem inteira, representando ali sua entrega total como artista. Era ela dizendo aos seus fãs: “eu confio em vocês”.
 
Há no livro bastante entrega e honestidade. Amanda Palmer conta sua história desde a época em que trabalhava como estátua viva nas ruas e toda a sua trajetória na música, passando pelos relatos de como conheceu e começou a se relacionar com Neil Gaiman, escritor e seu atual marido.
 
Enxergar Gaiman, um escritor do qual sou fã, pelos generosos olhos de Amanda só me deu mais motivos para admirá-lo. Eu também já conhecia e curtia o trabalho dela, mas depois desse livro, com uma linguagem íntima de quem está conversando entre amigos, passei a amá-la e a considerá-la uma referência para a minha própria vida e trabalho: quando crescer, eu quero ser essa mulher, eu pensava.
 
Como estátua de rua, vestida de noiva, Amanda conta que ficava imóvel, até que uma pessoa passasse e deixasse algum trocado em seu chapéu. Nesse momento, a estátua ganhava vida, estendia os braços com uma flor segurada na ponta dos dedos, e olhava profundamente nos olhos da outra pessoa. Silenciosamente, dizia “eu vejo você”, como um agradecimento por ela mesma ter sido vista.
 
É isso que Amanda faz também nesse livro: nos olha nos olhos, abre as cortinas das pálpebras para que possamos, também, vê-la profundamente. Podemos pegar a flor que ela nos estende e encaixar aquilo em nossa vida; ou deixar a estátua de noiva lá, estendendo os braços para o vazio, nos vendo partir, deixando a flor cair na calçada.
 
Não acho que seja preciso ser fã de Amanda ou Neil para tirar proveito do livro. Nem acho que é preciso ser artista para se inspirar com a história de Amanda sobre fazer arte independente, conseguir financiamento, se relacionar com os fãs – embora seja altamente recomendável para quem produz arte, de qualquer forma que seja.
 
“The Art of Asking” é sobre criatividade, sobre a arte como forma de nos conectar com o outro e sobre como confiança e verdade estão envolvidas nisso tudo. É, afinal, sobre histórias humanas.

 
3. A partir daqui, considero os livros num mesmo nível, compartilhando de uma primeira posição. Eu não saberia nem conseguiria dizer qual é o melhor entre eles. Cada um foi muito marcante pra mim, ainda que por motivos diferentes.
 
“Quarto de despejo” já piscava em letras neon diante de mim de tantas recomendações acumuladas, como todos aqueles clássicos na minha prateleira mental de “não acredito que você não leu esse ainda”. Então eu li e entendi porque é uma obra tão importante da nossa literatura.
 
Carolina Maria de Jesus foi uma das escritoras brasileiras mais expressivas, traduzida para mais de dez idiomas (no Japão, o livro ganhou o título de “Karonina nikki”, algo como “O Diário de Carolina”), ainda que ela seja negligenciada por aqui e não seja tarefa das mais fáceis encontrá-la nas livrarias – é mais provável que o livro seja encontrado nos sebos.
 
Catadora de lixo e moradora da favela do Canindé, em São Paulo, na segunda metade da década de 50, Carolina usava os cadernos que encontrava no lixo para escrever sobre seu cotidiano e pensamentos. Virou um diário que passou a ser publicado num jornal; há inclusive trechos em que os vizinhos vêm tirar satisfação com ela sobre algo que ela escreveu.
 
Entre as idas ao açougue para buscar restos de ossos que lhe davam, os dias catando papel nas ruas de São Paulo enquanto os três filhos ficavam sozinhos no seu barraco e as noites insones observando as estrelas, Carolina refletia sobre o cenário de desigualdade e escrevia sobre as pequenas coisas que compõem a condição humana. A preocupação com o que vai se comer no dia. A repetição da busca da água todas as manhãs. A brutalidade do ambiente: a cidade, a favela, as pessoas.
 
O quarto de despejo surge como uma metáfora para a desigualdade que estabelece seu papel e sua posição nessa história: ela aponta que, enquanto o centro da cidade é a sala de visitas, a favela é o quarto onde se joga o indesejável, o entulho, tudo aquilo que se quer esconder. Sua escrita, no entanto, é sua forma de se recusar a ser “despejo”, a ser “resto”. 
 
Sua voz é marcante não pelos “erros” gramaticais preservados pela edição (o que aliás me deixou na dúvida: isso teria sido uma forma de respeitar sua escrita, de mostrar que o texto tem valor independente de “norma culta”, de apontar que ela não precisa ser corrigida ou transformada em algo dentro do padrão, ou seria uma forma de apresentar uma escrita “autenticamente de favelado”? Realmente, não sei), mas sim pela sensibilidade para os detalhes normalmente desprezados pelo nosso olhar.
 
O olhar apurado de Carolina, de quem está acostumada a olhar para o lixo e ver o que tem valor ali, ou de quem procurava catar as luzes distantes das estrelas quando todos ao seu redor já estavam de olhos fechados, convida o leitor a ver humanidade nos lugares onde a cidade & a sociedade só nos ensinaram a ver miséria.

 
2. Quando escrevi o conto “Eu, Incubadora”, eu não conhecia “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood. Foi a primeira vez que ouvi falar sobre o livro, com alguém me dizendo “seu conto me lembrou O Conto da Aia!” – que na época eu nem achava que fosse um romance, achei que fosse um conto, como sugere o título.
 
Conhecer essa história – assim como a escrita de Margaret – foi das minhas grandes descobertas do ano. De novo, assim como aconteceu com “Quarto de Despejo”, foi um daqueles livros tão maravilhosos que não acreditei que ainda não o tivesse lido ainda.
 
“O Conto da Aia” se trata de um futuro distópico em que os Estados Unidos se tornaram um país teocrático, governado com base no fundamentalismo cristão. Mais ou menos o que aconteceria se a nossa bancada evangélica se unisse aos militares para governar o país. Pesadelo.
 
A submissão da mulher tornou-se institucional, mas aconteceu gradualmente: primeiro as mulheres não podiam mais trabalhar, depois precisavam de permissão do marido para sair, depois perderam todas as suas posses, transferidas para o nome do marido, e foram perdendo e perdendo até chegar o ponto em que foram divididas conforme seu papel na sociedade: Esposas (as mulheres da alta sociedade), as Marthas (serviçais), as Econoesposas (as esposas da classe baixa), as Tias (religiosas que instruíam as Aias) e as Aias (mulheres que só serviam para procriação).
 
“Era assim que vivíamos então? Mas vivíamos como de costume. Todo mundo vive, a maior parte do tempo. Qualquer coisa que esteja acontecendo é de costume. Mesmo isto é de costume agora. Vivíamos, como de costume, por ignorar. Ignorar não é a mesma coisa que ignorância, você tem de se esforçar para fazê-lo. Nada muda instantaneamente: numa banheira que se aquece gradualmente você seria fervida até a morte antes de se dar conta.” 
 
A narradora vê essa transição. De mulher livre e independente, casada, com uma filha, ela vai perdendo tudo, do emprego à própria filha, até só lhe restar ser resumida pelo hábito vermelho que passou a vestir. Ela é uma Aia, uma mulher que é entregue a um casal que não pode ter filhos (quer dizer, em que a ESPOSA não pode ter filhos, a culpa nunca é do homem), para que o marido transe com ela em um ritual bizarríssimo e ela engravide no lugar da Esposa. Ela sequer tem um nome. Ela não possui nem mais seu próprio corpo.
 
Mas ela ainda possui uma coisa: a MEMÓRIA. E é nesse território que a narradora transita para se sentir, de alguma forma, real diante do absurdo que a cerca.
 
A narrativa não é óbvia nem linear; as cenas vêm ondulando diante de nós como ondulam as coisas que existem apenas em nossa memória. Dessa forma, é possível ver e sentir com riqueza de detalhes o pedaço de manteiga que ela esconde dentro de seu sapato para, sozinha em seu quarto, passar nos braços para se hidratar e se sentir um pouco mais gente, enquanto em outros trechos, o rosto de sua filha, tomada dela há alguns anos, não passa de um borrão, quase uma fantasia.
 
Para além dos questionamentos sobre a opressão da mulher numa realidade não tão distante da nossa, Margaret faz esse livro pulsar com a voz e o olhar de sua narradora.
 
A história tinha tudo pra Offred (seu nome é um indicativo de posse; ela é “de” Fred, o militar a quem ela é designada) ser uma heroína que acidental ou deliberadamente muda esse cenário, mas não se trata de uma aventura ou da narrativa de uma luta para o fim da opressão. Ela é mais uma observadora – do mundo e de si mesma – procurando com atenção qualquer fresta, qualquer buraco ou brecha onde ela possa reencontrar um pedaço de sua própria humanidade.

 
1. Imagine uma história contada tradicionalmente, com início, meio e fim, personagem orientado por um objetivo, tudo em ordem cronológica, com todo aquele esquema de primeiro aconteceu isso, depois aquilo, então aquilo outro. Agora jogue tudo para cima e leia na ordem em que cair. É mais ou menos o que você tem quando deixa as memórias e sentimentos do personagem conduzirem a história.
 
Em “Por Escrito”, de Elvira Vigna, é difícil responder “sobre o quê é esta história?” quando alguém te vê segurando o livro, talvez porque a pergunta certa devesse ser “sobre QUEM é esta história?” 
 
O quem em questão é Valderez, a protagonista. O livro é uma série de cartas que ela está escrevendo para um “você”, o amante/ficante/companheiro dela. É em meio às suas viagens de trabalho, do qual ela está se desligando, que ela escreve para esse “você”, do qual também está se desligando, muitas de suas memórias – e memórias, você sabe, é bicho indomável que aparece em ordem e intensidade que não obedecem à nossa vontade.
 
Seu trabalho é escrever perfis de produtores de café – e minha nossa, é o tipo de trabalho que me vejo fazendo. E ela viaja para as fazendas, algo que me parece que é iniciativa dela, ir lá e conhecer os produtores, ver o que eles têm a contar para tentar colocar mais verdade em suas fichas, porque nem precisava. Mas ela não consegue fazer as coisas do jeito mais simples. E eu me vejo tanto nisso também. Risos.
 
Então as viagens, e ficar nos aeroportos, um lugar de transição, que é de onde, afinal, ela narra essa história. Um nem aqui, nem ali. Como o lugar onde ela sempre se sentava no prédio da mãe: no meio da escada. Nem em um andar, nem em outro. No livro também Valderez senta no meio do caminho: nem no passado nem no presente.
 
Portanto, não há exatamente um lugar, nem um tempo. Os pedaços da história vão se juntando das formas que a gente menos espera, porque o que estrutura “Por Escrito” não é uma ordem, os outros personagens, ou a sequência de fatos, mas sim a própria Valderez. Mais que narradora, ela é a liga que envolve tudo isso.
 
“Por Escrito” me deixou impressionada por apresentar personagens de uma forma diferente do que eu estava acostumada a ler. O que mais me faz admirar alguém que escreve é quando tem a capacidade de criar um personagem e fazer com que ele se pareça real. Não uma fantasia. Não uma idealização do que o autor gostaria que o personagem fosse ou fizesse. Mas um personagem com tanta profundidade e verdade que, mesmo sabendo que literatura é artifício, vai me deixar na dúvida: estou realmente vendo essa pessoa?
 
E você pode abrir o livro em qualquer página que você vai achar um parágrafo muito bom, bem escrito, com alguma perspectiva nada convencional. Serião. Isso me fez pensar na consciência absurda da autora, em toda a atenção necessária para os detalhes, para manter a qualidade no todo.
 
Vale dar o play neste vídeo, em que a autora conta, num texto incrível, sobre algumas das escolhas em relação às suas personagens.
 
Aí que enquanto elaborava e escrevia essa lista, percebi que os livros que selecionei como os três melhores tinham algo em comum: “Quarto de Despejo”, “O Conto da Aia” e “Por Escrito” são narrativas em forma de diário, protagonizadas por mulheres que, ainda que de formas bem diferentes, encontram-se aprisionadas em alguma circunstância: na pobreza, na submissão ou na repetição.
 
Não por acaso foram os livros que mais me surpreenderam, inspiraram e me tocaram este ano. São três mulheres fazendo uso da memória para elaborar a realidade onde vivem. São observadoras sensíveis e afiadas que podem frustrar quem está à espera de heroínas. São humanas.
 
E se por “observadoras” pode-se entender “passivas” ou “conformadas”, melhor olhar com atenção: ao narrar o tempo e o lugar que as envolve, elas conseguem firmar seu lugar no mundo e ressignificá-lo, nem que seja para elas próprias – e é pela voz de cada uma, pela possibilidade de TER uma voz, é que elas fazem isso. Voz para mostrar que suas histórias importam.
 
Exatamente o tipo de coisa que eu precisava ter lido esse ano.

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Até a próxima semana, ou seja, até 2016 :)
 
Beijos de fim de ano,
 
Aline. 
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