Copy
Mas era o ódio que estava em promoção.


Empacotaram o amor. Mas isso não é invenção recente, dessas novidades que a gente vê no noticiário, acha um absurdo e fica se perguntando onde é que esse mundo vai parar. Não, não é. Empacotaram o amor já há alguns séculos, antes mesmo de inventarem a comida congelada e os salgadinhos com cheiro de chulé.
 
Colocaram o amor dentro de uma caixinha, dessas que ficam expostas nas gôndolas de supermercado, nas prateleiras das lojas. Uma caixinha com tamanho padronizado, rótulo, etiqueta, e uma bela imagem na frente. É uma caixa vistosa, dessas que as pessoas ficam olhando na vitrine a vida inteira, ansiosas pelo dia em que vão poder levar uma para casa.
 
Amor Romântico: é o que se lê no rótulo, escrito em uma letra robusta, cheia de curvas sensuais, e, logo abaixo, uma chamada dessas publicitárias para tornar a caixa ainda mais atraente: “aquilo que você sempre quis”. A data de validade é indeterminada. As letras no fundo da embalagem indicam que deve ser eterno, para a vida toda.

Ao passar dos anos, desde quando foi inventada, bem antes de nossas avós nascerem, essa caixinha – e seu conteúdo – foi se adaptando aos novos tempos. Ganhou uma nova roupagem, novos ingredientes, mudou de tamanho. Mas em essência, continua a mesma coisa. Basta abrir para conferir: é o roteirinho de um casal (um homem e uma mulher, claro) que se apaixona e faz de tudo para ficar junto a vida inteira, prometendo fidelidade um ao outro.
 
É claro que há mais detalhes nesse roteirinho, o que faz com que essa caixa seja mais pesada do que parece. O ciúme, parte indissociável desse pacote, tem um peso considerável. Acharam que colocar esse ingrediente garantiria o tempero do amor. E ele já está há tanto tempo na fórmula que o paladar das pessoas associa imediatamente esse sabor amargo ao Amor Romântico, de forma que não conseguem imaginar como seria esse amor empacotado sem o sentimento de posse. Sem ciúmes, não é amor, dizem. Ainda que seja a causa de grandes tragédias, os fabricantes recusam-se a tirar o ciúme do pacote.
 
Quando empacotaram o amor, decidiram que ele seria do tamanho exato de duas pessoas. Isso talvez explique o porquê de se recusarem a tirar o ciúme da fórmula. Sem espaço para mais gente nessa caixa, as pessoas ficam preocupadas com quem o parceiro ou a parceira possa se envolver. Matam e morrem, se preciso for, para garantir que o outro ou a outra seja fiel, do jeitinho que as instruções da caixa descrevem. Amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo está fora de cogitação, embora seja possível amar igualmente pai e mãe, filho e filha. Mas Amor Romântico, o legítimo, é diferente: serve apenas duas porções. Além disso, em vez de crescer e transbordar, de ter para dar e vender, ele se gasta. Tem que economizar. Ninguém quer dividir: é meu, é minha. Nem tente roubar.
 
Empacotaram o amor e o colocaram em uma caixa tão bonita e desejável que as pessoas amam mais a ideia do Amor Romântico do que a outra pessoa de fato. Claro que a propaganda tem influência nisso – e o Amor Romântico tem a melhor campanha publicitária de todos os tempos. O merchandising está na maioria dos filmes, livros, novelas e até desenhos animados. Mesmo antes de ter idade para possuir um amor, a pessoa já o deseja e já sabe exatamente o que esperar dele – porque todas as histórias que ela consome já lhe disseram como ele deve ser.
 
Quando uma pessoa consegue o seu Amor Romântico, dentro daquele pacote tão certinho, ela fica encantada. Abraça a caixinha, deseja não mais soltá-la. Mas, como todo produto que nos empurram, o conteúdo é bem diferente daquela imagem bonita mostrada na embalagem, o que pode ser um tanto frustrante.
 
Toda a idealização do “amor para toda a vida” apresentado na caixa passa a ser projetado na pessoa amada, de forma que ela se transforme na “pessoa certa”. E assim começam a colocar as pessoas dentro de caixinhas. Aperta daqui, reprime de lá; tudo para que ela se encaixe em um ideal que só existe no rótulo do Amor Romântico – aquele que todo mundo compra e engole sem nem saber por quê. Sem nem se perguntar: eu realmente quero isso? Eu realmente quero isso desse jeito?
 
Empacotaram o amor. E, quando deixaram no formato que caberia na caixinha que criaram para ele, deixaram muita coisa de fora. Formas de amar que não se encaixavam na historinha que nos querem vender. 

O que poucos sabem é que dá para ter um amor diferente. Que não tenha rótulos. Que não exija que sigamos um roteiro. O problema é que não tem a facilidade das coisas enlatadas: é preciso meter a mão na massa e fazer você mesma. Mas o gostinho de encontrar a sua própria fórmula de amor, ah, isso não está à venda nem nas melhores lojas.


Gostou? Empacote este texto e espalhe amor por aí ♥︎
 
•••
 
Eu tenho uma dificuldade muito grande, na verdade um completo bloqueio, para escrever sobre amor. Minhas histórias quase sempre são arromânticas e assexuais; meus personagens quase nunca têm questões e conflitos ligados a relacionamentos amorosos.
 
Aquela história: alguém se apaixona, se decepciona, ficam juntos ou não. Por algum motivo, não consigo tirar muito daí. Nem precisava ser o conflito principal da história, podia ser algo complementar, algo que pudesse ser usado para aprofundar um personagem; afinal, isso é humano, as pessoas vivem isso, se identificam com isso, veem verdade nessa “jornada do amor”.
 
Talvez eu não explore esse tipo de conflito nas minhas histórias, apesar de ser verdadeiro e humano, não porque ele já seja muito explorado na literatura, nos filmes, nas músicas, o que significa que seu roteiro já foi exaustivamente repetido, mas porque, mesmo na vida real, as pessoas parecem estar repetindo um roteiro que muitas vezes não é o delas.
 
Estava lendo um artigo no NY Times, chamado “How We Write About Love”, em que um editor analisa o tipo de história de amor que as pessoas escrevem, principalmente baseado na sua experiência e nas toneladas de histórias que ele recebe:
 
“Primeiro, e o mais básico: como escrevemos sobre amor depende da nossa idade.
 
Os mais jovens esmagadoramente escrevem com uma mistura de ansiedade e esperança. Suas histórias perguntam: o que vai ser pra mim?
 
Na meia-idade, as pessoas são frequentemente conduzidas a escrever por seus sentimentos de mal-estar e desilusão. Suas histórias perguntam: é realmente isso o que há pra mim?
 
As pessoas mais velhas quase sempre escrevem de um lugar de valorização, independentemente de quão difíceis as coisas tenham sido. A mensagem delas: apesar de tudo, me sinto como alguém com sorte.
 
(…)
 
Mulheres e homens podem sentir amor de forma parecida, mas eles escrevem sobre isso de formas bem diferentes.
 
Muitas histórias de homens parecem revestidas de arrependimento e nostalgia. Eles desejam que antigos relacionamentos não tivessem terminado ou oportunidades românticas não tivessem escapado. Eles lamentam não terem sido mais emocionalmente abertos com suas amantes, esposas, pais ou crianças.
 
Mulheres são mais inclinadas a escrever com inquietação. Elas querem desvendar o amor. Muitas mantém uma lista de suas expectativas, detalhando as características de seu parceiro desejado ao alarmar especificidades e então avaliando como um novo interesse romântico se encaixa ou não nesse tipo.” 
 
Também achei interessante o trecho em que ele comenta o tipo de história que recebe de homens e mulheres e a diferença na reação ao ter um manuscrito rejeitado:
 
“Uma mulher tende a acreditar que seu ideal romântico espera em algum lugar no futuro, onde suas fantasias de muito tempo então se tornam realidade de carne e osso.
 
O ideal romântico de um homem geralmente existe em algum lugar no passado, na forma de uma pessoa real que ele amou mas que deixou ir, ou que foi embora. E ele continua voltando a ela em sua cabeça, e provavelmente no Facebook e no Instagram também, pensando: ‘e se?’
 
Eu não sei se homens são piores do que mulheres quando se trata de rejeição romântica, mas eles claramente são piores quando se trata de rejeição literária. Apesar de apenas 20% dos manuscritos enviados virem de homens, eles mandam mais de 90% dos e-mails bravos que eu recebo em resposta a terem sido recusados. Para esses homens, ‘não’ não significa ‘não’. ‘Não’ significa o começo de um interrogatório sobre como foi possível que isso tenha acontecido.” 
 
Não é curioso que também na literatura homens tenham mais dificuldade em lidar com rejeição? No texto, ele fala de homens não aceitando o “não” de um editor, o que não parece ser muito diferente do que acontece quando recebem o “não” de uma mulher.
 
Mas isso não vem ao caso.
 
Esse buraco na minha escrita, uma lacuna em que me recuso (ou não consigo) preencher com relacionamentos amorosos, primeiro vem do fato do tipo de leitura que mais gosto de consumir não ser focada em conflitos românticos, de forma que fui absorvendo outros tipos de referências. E a gente escreve sobre o que a gente gosta de ler, né? Me interesso muito pouco em ler histórias de amor, e mesmo quando leio, são outras coisas que acabo procurando na história – e isso se reflete no tipo de coisa que eu vou escrever. Normal.
 
Mas também porque passei da fase de idealizações, de achar graça em duas pessoas descobrindo que gostam uma da outra e oh, tentando lidar com todo o arrebatamento da paixão, as dificuldades para ficarem juntas e argh, too much drama.
 
E não é preguiça de “too much drama” apenas na ficção, mas também na vivência de relações. Não tenho paciência – nem para drama em relações amorosas, nem em familiares, nem em amizades. Felizmente, meu relacionamento atual é estável, bem construído, me sinto tão bem resolvida nesse aspecto que acaba nem sendo uma questão sobre a qual eu me interesse em desvendar, em escrever sobre.
 
Mas o lance é que não precisamos nos apegar a esses roteiros românticos, nem para escrever nossas histórias, nem para viver nossas relações.
 
O melhor filme sobre amor que eu já vi tem um pouco disso; mas na verdade não é um filme, são três: a trilogia “Before”, com Ethan Hawke e Julie Delpy. Before Sunrise (de 1995), Before Sunset (de 2004) e Before Midnight (de 2013). Se você ainda não viu, sério, eu não sei o que você tá fazendo que ainda não viu!!1!
 
A trilogia mostra a história de um casal em três diferentes momentos de suas vidas, com um intervalo de nove anos entre cada momento. O primeiro é quando eles se conhecem, o segundo é quando se reencontram, e no terceiro eles já estão há alguns anos casados.

Before Sunrise
 
Olha só, acaba correspondendo às três percepções de amor de que o editor falou no texto ali em cima: o primeiro, com os dois jovens, tem toda uma vibe de amor à primeira vista, idealizações de futuro, entregar-se inteiramente a uma paixão momentânea; o segundo já tem aquele clima de desencanto, de “bem, as coisas não aconteceram bem como a gente imaginava”; e o último já mostra o casal maduro, com os dois reconhecendo a importância da relação apesar de todas as dificuldades.

Before Sunset
 
O que gosto na trilogia, além de ser toda trabalhada em diálogos incríveis em plano sequência (os filmes são, basicamente, os dois conversando durante um dia), é que a história vai bem além do que estamos acostumados a ver no cinema sobre a “jornada no amor”. Essas histórias geralmente tem o fator “destino”, aquela coisa de achar a pessoa certa e os acontecimentos meio que apontarem que o casal foi feito um para o outro. São histórias que focam na fagulha da atração, no desejo de ficar com a pessoa, nas idealizações e fantasias sobre passarem a vida juntas.
 
O que é muito lindo, muito emocionante e tal, mas ninguém fala que isso não é tudo, nem o mais importante. Que relações precisam de esforço. Que amor não é uma coisa que surge magicamente pronta (como um pacotinho embalado), mas algo que é preciso construir, um pouquinho a cada dia, durante muito, muito tempo. E o roteiro do “amor pronto para consumo” que os filmes, livros e músicas repetem incansavelmente, acabam gerando muita frustração quando as pessoas veem que hm, não é bem assim.

Before Midnight
 
A trilogia Before é diferente porque vai desconstruindo, filme após filme, essa idealização do amor. No último filme (e meu preferido), os dois estão casados há algum tempo, estão em crise, mas têm uma relação muito mais profunda (e diferente) de quando eles eram dois jovens perdidamente apaixonados. Se no primeiro filme eles vivem um “conto de fadas”, no terceiro filme, eles mostram um amor mais “pé no chão” – uma história com a qual consegui me identificar muito mais, justamente pela imperfeição, pelos problemas, por abandonar a imaturidade de projetar na outra pessoa o que você gostaria que ela fosse.
 
E imperfeições deixam a coisa mais real, mais interessante, principalmente se estivermos falando de histórias românticas. Pensando bem, meu problema com essas histórias não é o amor, mas a IDEALIZAÇÃO.
 
Então, quem sabe, eu consiga colocar nas minhas próximas histórias um pouquinho de amor?
 
•••
 
Às vezes você pensa que é amor. Te dizem que é amor. Mas não passa de cilada.
 
A pessoa com quem você se relaciona tem ciúme dos seus amigos? Controla com quem você pode sair, inspeciona suas mensagens no celular, nas redes sociais e nos e-mails? 
 
Essa pessoa já usou algum contato físico pra te ameaçar, como segurar pelo braço, empurrar, ou ainda derrubar e socar coisas para te intimidar? Ou faz chantagem emocional para que você concorde em fazer sexo com ela? Humilha você, derruba sua autoestima, fica com raiva quando você mostra sinais de força e independência?
 
Fique alerta a esses sinais, porque podem indicar que você está em um relacionamento abusivo. É bom dizer que relacionamentos abusivos não acontecem somente com casais heterossexuais, mas claro que a estrutura da nossa sociedade favorece que homens exerçam poder sobre mulheres, o que torna as mulheres mais expostas a esse tipo de relacionamento e mais suscetíveis à violência nessas relações.
 
Nesse texto da Carta Capital, escrevi sobre outros sinais que podem ajudar a identificar se você (ou alguém que você conhece) está num relacionamento abusivo. Chega de chamar isso de paixão, de pessoa louca de amor. Não, não tem nada a ver com amor: é abuso.
 
•••
 
Hoje não vou indicar um vídeo, mas sim um programa de áudio. Se você puder tirar um tempinho do seu dia para ouvir, garanto que não vai ser um tempo perdido.
 
As minas do podcast Mamilos gravaram um programa sobre Violência Contra a Mulher, abordando diferentes aspectos da questão, trazendo diferentes vozes, tratando o tema com profundidade.
 
Não vou comentar muito, mas alguns motivos para você ouvir: tem a participação da Jules de Faria, do Think Olga, numa conversa sobre assédio na rua e violência na internet; tem entrevista com a diretora do filme “India’s Daughter”, sobre o caso da mulher que sofreu um estupro coletivo dentro de um ônibus na Índia e depois foi assassinada; entrevista com o coordenador de um projeto que envolve homens agressores e tenta entender as motivações da violência; outro motivo é que o programa é muito, muito bem feito, com uma produção admirável; e, finalmente, porque o tema é necessário e PRECISA ser repercutido.
 
•••

Por falar em amor, vou amar se você comprar meus e-books ♥︎

Hipersonia Crônica

"E se você ficasse preso numa perigosa aventura dentro dos seus próprios sonhos?"
Disponível para Kobo e Kindle!
Clique para comprar:

     

 

Pequenas Tiranias

"E se você encontrasse um dinossauro no seu quintal, como você o esconderia?"
Tem pra Kindle e tem pra Kobo!
Clique para comprar:

     

Nas edições passadas



Clique aqui para ver todas as edições.

Se curte receber meus e-mails, não se esqueça de indicar prazamiga, mandando este link. Obrigada!
Escrevo estas palavras no momento em que acabo de voltar de uma palestra que dei no evento TEDx USP.

Adorei ter recebido o convite porque vi como uma oportunidade de falar sobre algo que acho muito importante: sobre ouvir as histórias das mulheres, sobre conhecer mais escritoras, sobre a importância de nos expressarmos (em um mundo que nos manda ficar caladas), sobre descobrir a própria voz.

foto do Marcos Felipe
 
 
A verdade é que ainda estou descobrindo a minha voz, e às vezes ainda me assusto, estranho quando preciso me expressar (escrevendo é sempre mais confortável, mas nem sempre). E isso acabou se refletindo lá no palco, com o meu nervosismo quando comecei a ouvir minha própria voz. Me falta ainda um longo caminho para aprender a amá-la, a me acostumar a escutá-la.

E falar é quase um exercício físico, né? Enquanto eu ensaiava, tinha vezes que eu ficava sem fôlego. Falar envolve muita coisa: respiração, postura, concentração, calma, saber ocupar o espaço. É algo que preciso praticar mais, praticar sempre. Porque já deu de me acostumar a ficar calada, a acreditar que eu não sei o que tô falando.

Foi um evento fechado pra convidados da USP, por isso não divulguei nada, mas em breve vai sair o vídeo e eu te mostro, combinado?

Semana que vem estou de volta pra gente conversar mais.
 
Beijos de amor,
 
Aline. 
Tweet
Share
Forward

Email Marketing Powered by Mailchimp