Copy
Começaram as listas!


<<Seu nome>>, resolvi dedicar a edição de hoje a temas sobre os quais já escrevi bastante, mas sempre de forma fragmentada. As histórias que lemos, ouvimos e assistimos possuem padrões e mecanismos; do avesso é possível ver as engrenagens trabalhando, as linhas se cruzando, as luzinhas se acendendo ou apagando.
 
É sobre alguns desses padrões e mecanismos que vou falar hoje, mais especificamente sobre sete deles: Suspensão de Descrença; Jornada do Herói; Narrativa do Herdeiro; Narrativa do Escolhido; Teste Bechdel; Deus Ex Machina; e Jobber Aura. Para você ler o quanto e na ordem que achar melhor. 
 
São elementos importantes para quem cria e escreve, mas também vale prestar atenção neles se você é espectador ou leitor, para ser capaz de pensar nas histórias de forma mais crítica e, quem sabe, com os truques desvendados, conseguir apreciar ainda mais a magia que há por trás delas.
 
Suspensão de Descrença

 
Sem ela, seria praticamente impossível se divertir com boas histórias, porque estaríamos mais ocupadas apontando “ISSO É IMPOSSÍVEL, QUE MENTIRA” pra tudo. Ops, tem gente que já faz isso né?
 
Suspensão de descrença é quando você decide previamente que vai aceitar como verdadeiras as premissas de uma história, mesmo sabendo que são fantásticas, impossíveis ou contraditórias. Ou seja, você aceita acreditar que aquelas coisas existem ou são possíveis mesmo sabendo que tudo aquilo não existe de verdade.
 
“Olha, você pode fingir rapidinho que é possível brinquedos terem vida para eu te contar uma história legal?” E aí você aceita, porque quer se divertir ou se emocionar com o que a história sobre brinquedos falantes tem a oferecer.
 
O negócio é que o limite da suspensão de descrença varia de pessoa para pessoa. Os conhecidos como nitpickers (algo como “catador-de-lêndeas”, alguém que se empenha em buscar e apontar os menores erros), parecem ter tolerância bem próxima a zero.
 
É um típico nitpicking implicar com um filme que mostra explosões no espaço porque “som não se propaga no vácuo!!”, enquanto o filme está cheio de raças alienígenas, sabres de luz e coisas que a ciência não consegue explicar.
 
Um dos problemas desse tipo de “implicância” é acharem que todo filme deve ser tratado como algo que deve ter suas imperfeições reveladas, como se fosse mais importante ser impecável ou cientificamente correto do que ser uma história divertida, emocionante ou inteligente que nos revela algo sobre nós e o mundo em que vivemos.
 
Isso me lembra a Glória Perez, que há alguns anos foi muito zoada por erros de continuidade (ou de lógica) na sua novela e respondeu os espectadores com o seguinte comentário: “é triste não saber voar com a ficção.”
 
Nesse ponto eu tenho que concordar com a Glorinha, por mais que eu mesma não aguentasse todos os furos e incoerências das novelas dela. Acho que sim, é bom saber voar com a ficção. Mas cada um tem um limite da suspensão de descrença – e numa mesma história podemos encontrar partes que não vamos conseguir engolir, enquanto outras partes vão nos convencer com facilidade.
 
Para voar com uma história em que uma princesa feita de chiclete é uma super cientista que cria em seu laboratório uma criatura de limão absolutamente psicótica, eu posso planar tranquilamente a 11 mil pés de altitude num voo gostoso; enquanto que, numa história em que um astronauta sobrevive a um fucking buraco negro, minha suspensão de descrença vai pro espaço, pra bem além da estratosfera, onde já não consigo mais alcançar.
 
A gente suspende a descrença até onde a história consegue levar a gente, né.

Jornada do Herói
 
 
Praticamente todas as histórias criadas pela humanidade possuem uma estrutura narrativa em comum, além de personagens que seguem determinados arquétipos.
 
É o que o antropólogo Joseph Campbell aborda em sua Teoria do Monomito, descrito no livro O Herói de Mil Faces. Campbell pesquisou várias culturas e percebeu que as histórias repetiam determinado padrão, descritas pelo ciclo de 12 fases da Jornada do Herói.
 
Essa jornada começa mostrando o herói em seu mundo ordinário (1); quando ele recebe o chamado para a aventura (2); primeiro ele recusa esse chamado (3); mas aparece um mentor em seu caminho, para guiá-lo pela aventura (4); é hora do herói cruzar a linha entre o seu mundo e o mundo onde a aventura o aguarda (5); ele encontra aliados e inimigos e suas habilidades são postas à prova (6); mas ele precisa enfrentar seu medo adentrando o desconhecido (7); é quando ele enfrenta a grande ameaça (8); depois de enfrentar o vilão, é hora de receber a recompensa (9); e de retornar para casa (10); o herói volta transformado, ressurrecto (11); e ele volta para o seu mundo, mas as coisas não serão mais como eram antes (12).
 
Esse vídeo animado ilustra bem essas doze etapas e ainda mostra histórias populares que estão conectadas por esse mesmo padrão. Vale a pena o play.
 
A Jornada do Herói é uma estrutura que pode ser encontrada desde aventuras de RPG até a história de Jesus Cristo. Muitas histórias seguem esses 12 passos, ou pelo menos alguns deles.
 
Algumas figuras-chave também se repetem, como o “mentor” – o personagem que prepara o herói para a aventura: Mestre Yoda, João Batista, Gandalf, Nick Fury, são alguns exemplos.
 
Resumindo, o monomito se trata de um personagem enfrentando obstáculos para alcançar seu objetivo. E Campbell nos dá uma boa pista para começar a perceber semelhanças entre várias mitologias e outras histórias criadas pela humanidade, seja em poemas épicos, em quadrinhos ou numa tela de cinema.
 

Narrativa do Herdeiro

 
Um outro padrão de história tem mais a ver com o seu tema do que com sua estrutura; é a narrativa do herdeiro.
 
Um exemplo está nos quadrinhos (também no cinema): Thor é filho de Odin, o deus supremo de Asgard, o que o torna príncipe e sucessor do trono de Asgard. Mas, por ser um playboy arrogante e inconsequente que acaba aprontando altas merdas, acaba banido de Asgard pelo pai, sendo mandado para Midgar (a nossa Terra) como punição. O irmão adotivo de Thor, Loki, não se conforma de não ter direito ao trono e eventualmente faz de tudo para sabotar o irmão e tentar conquistar Asgard. Tomar o que é, de direito, de Thor.
 
Essa premissa, do direito de herança que é (ou tenta ser) tomado do herdeiro, está presente em outras histórias, de Shakespeare a Disney.
 
Thor tem muito em comum com Simba, de Rei Leão, que também é herdeiro de um reino, é “banido” e tem um antagonista, seu tio Scar, que faz de tudo para ser o sucessor do trono no lugar do sobrinho.
 
Por sua vez, Simba tem muito em comum com Hamlet, um príncipe que tenta vingar a morte do pai causada pelo tio, que assume o trono da Dinamarca.
 
Até Senhor dos Anéis conta com uma narrativa do herdeiro: Aragorn, descendente de Isildur, Rei de Gondor, precisa ser afastado e tem a origem de sua linhagem mantida em segredo pelos elfos, para impedir que Sauron viesse atrás dele.
 
Em resumo, a estrutura dessa narrativa consiste em: filho de alguém poderoso, tem direito a um reino, mundo, ou a uma posição de importância, é afastado por algum motivo e possui um inimigo ou circunstância adversa que o impede de ter o que é, de direito, seu.
 
O interessante é que essa narrativa me faz lembrar do discurso que leva o jovem rico a acreditar que o mundo é seu, sua herança natural, que está destinado ao sucesso, e vê qualquer um que se põe em seu caminho (o negro/pobre que “rouba” sua vaga na universidade, por exemplo) como uma ameaça. 
 
Uma relação com a realidade no mínimo curiosa.

 
Narrativa do Escolhido
 
Um outro padrão encontrado em algumas histórias é o que chamo de “narrativa do escolhido”, onde o personagem principal é poderoso ou especial porque sim, sem nenhum outro motivo além de ser ele o protagonista. 
 
A ideia do protagonista que é um “escolhido”, alguém cujo destino é ser “especial”, pode ser encontrada em várias histórias, de Matrix a Labirinto do Fauno, e podem ter significados BEM diferentes.
 
Faz algum tempo eu escrevi uma crítica sobre o seriado Girls (acho que na época estava na segunda temporada) e fiz algumas comparações com outras representações sobre jovens de outras épocas, como o filme Reality Bites e o livro On The Road.
 
Tem um pouco a ver com o assunto: nele falo sobre como essa juventude retratada em Girls se acha especial, destinada a fazer algo GRANDE. Acreditam que merecem o mundo simplesmente porque sim, enquanto não se esforçam nem um pouco pra isso.
 
 
O que talvez diferencie Girls e Reality Bites da narrativa do escolhido mais comumente vista é que essa ideia de se achar especial vêm dos próprios personagens, e não de quem os escreveu (que pode, na verdade, estar criticando e ridicularizando esse comportamento), o que acaba tornando a história mais interessante, aberta a mais interpretações.
 
Mas um bom exemplo de narrativa do escolhido em que é quem conta a história que faz o personagem parecer “especial” está no filme Ender’s Game (antes de continuar: não, não li o livro). A história é sobre uma raça alienígena, as Formics, que estão ameaçando a Terra e sobre uma escola de combate, na órbita da Terra, que se destina a treinar jovens para enfrentar esses inimigos.
 
Ender, o protagonista, é um menino franzino que sofre bullying e aquela coisa toda que praticamente todo herói adolescente tem que ser. Por algum motivo, ele é naturalmente bom em batalhas estratégicas e é escolhido para ir para essa escola. Lá ele não precisa se esforçar muito para conquistar o respeito dos colegas e muito menos a confiança do comandante do lugar, o Harrison Ford.
 
Fiquei o filme todo esperando alguma justificativa para ele ser assim tão especial. Mas não veio. Não tinha sequer motivo para serem adolescentes nessa base de treinamento, em vez de adultos (a não ser, é claro, o justíssimo motivo de fazer os adolescentes irem ao cinema).
 
Foi a mesma coisa com o Harry Potter, que aliás, é o personagem mais fraquinho de toda a história.  Ele é colocado como o grande herói, mas a maioria de seus “feitos” são pura obra do acaso (ou de uma autora muito generosa com ele), quando não é puro mérito da Hermione.
 
Não existe nada que justifique que eles sejam tão especiais, tão acima dos outros. Mas vá lá, a gente acredita que são porque, né, se dá pra acreditar em varinhas mágicas e formigas alien, que que custa acreditar nisso também (alô suspensão de descrença, bem-vinda à revisão do telecurso 2000).
 
Não é interessante notar como é atraente essa ideia de que existam pessoas mais ESPECIAIS que as outras… e que elas também não precisam se esforçar tanto para serem considerados grandes heróis?
 

Teste Bechdel

 
Algumas coisas estão tão naturalizadas que a gente não repara. Como a falta de filmes centrados em histórias de personagens mulheres. É para isso que serve o Teste Bechdel, um teste que mede a relevância e a presença de personagens femininas nos filmes.
 
O Teste Bechdel surgiu nos quadrinhos, em uma história de 1985 chamada Dykes to Watch Out For, e foi criado pela autora Allison Bechdel. Ela só ia assistir a um filme se ele cumprisse três regrinhas básicas, que determinariam se as mulheres eram relevantes para a história.
 
Para passar no Teste Bechdel, o filme precisa ter:
 
1. Pelo menos duas mulheres com nomes.
 
2. Que conversam entre si.
 
3. Sobre coisas que não sejam um homem.
 
Não é pedir muito, né? Mas, por incrível que pareça, uma maioria esmagadora de produções cinematográficas NÃO PASSAM nesse simples teste.
 
É bom deixar claro que o Teste Bechdel não determina se um filme é feminista, se é livre de estereótipos machistas, se foi feito para mulheres ou até mesmo se é bom ou ruim.
 
Há filmes sofríveis que passam no teste, e outros inúmeros filmes que eu gosto e recomendo que não passam. Também há vários filmes estrelados por mulheres, feitos para o público feminino e que não passam no teste!
 
A importância do teste é outra: mostrar se as personagens femininas têm relevância em uma história e não estão se ocupando de coisas relacionadas a homens.
 
Quer exemplos? Neste site você encontra uma lista bem grande de filmes, constantemente atualizada, que indica não só se determinado filme passa ou não, mas em qual dos três quesitos o filme falha em representar as mulheres.
 
Vamos dar uma olhada em alguns exemplos de filmes de super-heróis: o novo Quarteto Fantástico, por exemplo, não passa porque Susan é a única personagem cujo nome é mencionado no filme. Ant-Man até tem duas mulheres com nome que conversam, mas o assunto é homem. De acordo com o site, o segundo filme de Avengers só passa se você tiver a boa vontade de considerar como válida a breve conversa entre Natasha e Laura ou entre Natasha e sua mentora num flashback.
 
E se a gente for investigar os filmes que passam e ver quanto tempo de filme ocupa a conversa entre mulheres comparada com conversas entre homens, também vai ser de chorar.
 
Isso revela que a maioria dos filmes que assistimos é sobre homens. Homens fazendo coisas, homens vivendo aventuras, homens salvando o mundo, homens conversando com homens, homens vivendo grandes amores, ou mulheres falando sobre homens.
 
Muitos filmes não deixam de ser incríveis e memoráveis por causa disso, mas, de novo: não é a qualidade dos filmes que está em jogo. Estamos diante de um padrão único de histórias que vem se repetindo incansavelmente há décadas. E esse padrão vem excluindo um gênero inteiro, ao representar mulheres de forma tão secundária – e, muitas vezes, nula.
 
Isso não é inofensivo por aparentemente se tratar de “só um filme”. Filmes não existem no vácuo; eles têm relação direta com a nossa cultura e retratam e influenciam o mundo ao nosso redor.
 
Filmes que insistem nesse padrão reforçam a ideia de que mulheres existem em função de homens, de que não temos outros assuntos e interesses que não sejam relacionados a homens, porque eles seriam tão mais importantes que seria normal e até esperado que eles fossem o centro das histórias – mesmo aquelas vividas por mulheres.
 
Por outro lado, talvez devamos prestar mais atenção aos filmes que passam nesse teste. Mad Max: Estrada da Fúria, Que Horas Ela Volta?, Jogos Vorazes, O Babadook, Obvious Child, são alguns exemplos dos quais já falei na newsletter. E todos também protagonizados por mulheres.
 
Nas séries há ainda mais exemplos (talvez por haver mais tempo para desenvolver uma conversa entre duas mulheres ou porque as séries estão saindo na frente no quesito representatividade): Jessica Jones, Orange is The New Black, Sense8, Orphan Black, The Fall – e tenho certeza que você sabe de outros exemplos!
 
Porque são essas histórias, as que rompem um padrão caduco, que podem apontar o caminho para personagens e situações novos e surpreendentes, justamente por não terem sido tão explorados ainda.

 
Deus Ex Machina

 
Apesar de ser o nome de uma HQ da Vertigo e de um jogo para computador, é de outro Deus Ex Machina que vamos falar, um que já apareceu em vários filmes, livros e quadrinhos e você nem deve ter percebido.
 
Deus Ex Machina é uma solução inesperada e milagrosa que surge para resolver um conflito aparentemente insolúvel da história. É um recurso que alguns autores usam quando não sabem resolver de outra forma a encrenca na qual colocaram os personagens e resolvem dar uma “roubada” para o enredo acontecer.
 
Deus Ex Machina significa, literalmente, “deus surgido da máquina”, fazendo referência à sua origem, na Grécia Antiga. Nas peças de teatro daquela época, era comum a trama ficar cada vez mais complicada até que, em determinado momento, descia um ator de guindaste para o meio da encenação, e ele, representando um deus, aparecia para resolver todas as pontas soltas da história com seu poder divino.
 
Hoje nem é preciso guindaste ou uma divindade para um Deus Ex Machina acontecer: ele pode vir disfarçado de nave vindo salvar o herói no alto de um penhasco quando o inimigo está quase para pegá-lo, ou de um lenhador que aparece bem na hora de impedir que o lobo coma a menina indefesa.
 
Alguns exemplos (com óbvios spoilers):
 
Em Matrix, no último filme, tudo aponta para a aniquilação da humanidade, mas Neo viaja até a Cidade das Máquinas e pede ao supercomputador que comanda as máquinas (até então não mencionado) que considere a paz e isso impede Zion de ser destruída por milhares de sentinelas. Salvos pelo gongo! O mais interessante é que o nome desse supercomputador é… Deus Ex Machina.
 
Praticamente todos os livros de Harry Potter trazem no final uma mirabolante reviravolta que deixam as coisas a favor de Harry. Um exemplo está no segundo livro/filme, A Câmara Secreta, em que a fênix de Dumbledore surge do nada trazendo uma espada que faz Harry derrotar o basilisco quando ele já estava todo arregaçado e não tinha mais a menor chance. Ele chega a ser ferido por uma presa do monstro, mas a fênix de novo salva o dia chorando sobre o ferimento e magicamente tudo fica bem.
 
Não foi o único caso em que um Deus Ex Machina veio voando: Tolkien também gostava de usar bastante esse recurso. Algum personagem tá em apuros? Manda águia pra eles! Por exemplo, quando as águias gigantes resgatam Gandalf no alto da torre de Saruman ou quando em O Hobbit as águias aparecem para salvar os anões presos no alto de árvores em chamas.
 
Há uma dica para escritores que diz: nunca use do acaso para tirar seu personagem de uma situação complicada. Por outro lado, é interessante usar do acaso para COLOCAR o personagem em uma situação complicada. Um tipo de Deus Ex Machina às avessas. Seria um Diabo Ex Machina?

Jobber Aura
 
 
Jobber é um termo em inglês muito usado no wrestling (e às vezes no boxe) para designar um lutador que é pago para perder para o lutador principal do evento. Esse é justamente o "emprego" de alguns vilões das histórias: por mais que representem uma grande ameaça, eles estão ali para levar uma surra dos mocinhos.
 
O personagem principal da trama é, muitas vezes, o que emite a Jobber Aura. Esta "aura", muito mais do que seus poderes, é o que o faz ele se parecer muito mais poderoso do que realmente é, já que pode derrotar facilmente seus inimigos.
 
Eu sempre me lembro dos desenhos japoneses quando o assunto é Jobber Aura. Impossível não pensar em Seiya, dos Cavaleiros do Zodíaco, que mesmo enfrentando inimigos muito mais poderosos, sempre, SEMPRE, derrotava eles no final em uma virada "surpreendente". Ou Yusuke, de Yu Yu Hakusho, que mesmo enfrentando um brucutu que conseguia usar 120% (!) de sua monstruosa força, conseguiu "despertar" os seus poderes e vencer uma batalha que já parecia perdida.
 
Se você estiver diante de um combate entre um vilão (ou outro personagem) contra um herói e você sentir aquele clima de "já ganhou", porque, bem, ele é o personagem principal e não pode perder, você está vendo a Jobber Aura agir.
 
O problema da "aura de invencibilidade" nem é o leitor estar sendo "enganado" com uma luta que não termina como deveria terminar se fosse levado à risca o poder do adversário. Afinal, sabemos que aquilo tudo é ficção e aceitamos que um personagem tenha o poder de ser invulnerável em nome da narrativa sobre ele que queremos ouvir ou ler.
 
Mas temos um problema quando essa "aura de invencibilidade" é usada pelos roteiristas para nos empurrar algum personagem como "foda" porque ele é o mais poderoso. 
 
Acredito que vencer inimigos não seja o fator que torne um herói interessante; mas sim o seu desenvolvimento, os seus dramas, e o que as decisões que ele toma dizem sobre ele. Personagens com essa profundidade sim, são imbatíveis.
 
•••
 
Mais sobre o tema
 
Se você se interessa pelo assunto de construção de histórias, vou deixar alguns links e indicações pra você:
 
:: O site TV Tropes lista e categoriza uma infinidade de padrões nas histórias – e uma história conter um padrão não é necessariamente bom, nem ruim; esses padrões são ferramentas que os contadores de histórias podem usar para construir seus enredos e personagens. Dá pra passar horas pesquisando e descobrindo novos padrões – e exemplos de histórias que as contêm, seja em games, filmes, quadrinhos, livros, TV e até teatro.
 
:: O Manual do Roteiro, de Syd Field, é o básico pra quem escreve histórias, apesar de ser voltado para a narrativa cinematográfica.
 
:: As 22 regras da Pixar para a construção de boas histórias (texto em inglês).
 
:: Se você procura referências mais avançadas para criação de personagens e histórias, tenho três indicações indispensáveis e excelentes: Como funciona a ficção, de James Wood; Os segredos da ficção, de Raimundo Carrero; A Personagem de Ficção, com textos de vários autores, entre eles, Antonio Candido.
 
:: O Zen e a Arte da Escrita, do Ray Bradbury, também está cheia de dicas maravilhosas para escritores, além de contar um pouco a trajetória dele na criação para livros, contos, poemas, filmes e teatro.
 
Se você conhece algum outro livro bacana sobre o tema, indica pra mim! Vou adorar :)
 
•••
 
E já que estamos nesse clima de leitura, ficção e indicações, mais duas dicas pra você:
 
:: O zine de ficção científica Regador, organizado pela Vanessa Guedes, que lançou no ano passado a primeira edição com o tema Tecnoxamanismo – e dá pra baixar de graça no site!
 
:: Saiu a segunda coletânea do Universo Desconstruído e você pode baixar o livro lá no site, no formato de sua preferência, com o singelo custo de um tuíte ou de um post no FB! Tem cordel, afrofuturismo, psicodelia, andróides, naves e heroínas espaciais. Está disponível em três formatos digitais e você ainda pode pedir o impresso pelo Clube de Autores!

Nas edições passadas



Clique aqui para ver todas as edições.

Se curte receber meus e-mails, não se esqueça de indicar prazamiga, mandando este link. Obrigada!
O final do ano se aproxima a galope e, com ele, as pessoas vão guardando as coisas na gaveta, desligando os computadores e só planejando voltar em 2016. Vai ficando meio vazio aqui, né?


 
Se você vai viajar, aproveite suas férias, divirta-se, tenha boas festas e a gente se vê ano que vem! Estarei por aqui quando você voltar ;)
 
Se você não for viajar, ou até se vai ter férias mas vai continuar procurando Bobagens na sua caixa de entrada aos sábados, saiba que a programação da newsletter continua normalmente e estarei aqui para te fazer companhia!
 
Na próxima edição, vou contar quais foram os melhores livros que li este ano – e, quem sabe, você descubra histórias para colocar na sua lista de leitura em 2016.
 
Beijos narrativos,
 
Aline. 
 
Tweet
Share
Forward

Email Marketing Powered by Mailchimp