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Uma edição olímpica.
Bobagens Imperdíveis

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 120
esporte / vida / arte

A narrativa da volta por cima


Olá, <<Seu nome>>! Como vai? Curtindo as Olimpíadas? Torcendo? Eu sim, tanto que resolvi que seria o tema desta edição.

Juntamente com as Olimpíadas costuma emergir um tipo de narrativa que acho interessante apontar. Em meio ao espírito esportivo, à união das nações por meio do esporte, à exaltação da trajetória de cada atleta, tudo muito lindo e realmente emocionante, percebo, especialmente em relação aos atletas brasileiros, um tipo de discurso que atravessa e costura um sentido para as vitórias conquistadas.

A narrativa do fodido que dá a volta por cima.

Claro, é grandioso que uma pessoa atleta consiga vencer não só os recordes e disputas do próprio esporte, mas as barreiras da falta de apoio, das dificuldades e do preconceito para subir ao pódio vitoriosa. Vira inspiração, o símbolo de que é possível ir além, vira algo maior do que ela mesma.

Se por um lado é inspirador, por outro é incômodo pensar que, em primeiro lugar, para que essa narrativa funcione, a pessoa vitoriosa tenha que ter passado uma vida na merda. Claro, para dar a volta POR CIMA, é preciso que tenha primeiro estado POR BAIXO.

A seleção feminina brasileira de futebol é um bom exemplo: com muita razão estão sendo exaltadas por jogarem tão bem, pela coesão da equipe, por oferecerem um espetáculo para o público. Mas principalmente por mostrarem seu valor APESAR de terem sido desprezadas, pela falta de patrocínio, pelo machismo, pela falta de atenção em um país onde futebol masculino é sinônimo não só de futebol, mas de esporte.

Antes do jogo Brasil x Suécia, em que as brasileiras ganharam de 5 a 1, a televisão mostrou um pouco da trajetória da Marta. No início de sua carreira, a jogadora recebeu uma proposta para jogar num time da Suécia, onde acabou sendo consagrada na Europa.

É fácil assistir a isso e vir aquele sentimento de “tão boa que foi brilhar fora do Brasil”, mas essa história esconde um lado bem menos atraente: para viver como atleta no futebol e ser reconhecida, ela precisou sair do país.

Durante a transmissão, o narrador lembrou que havia várias colegas de Marta na seleção adversária, já que atualmente ela joga na Suécia. E o que fica não-dito é que talvez isso aconteça porque o Brasil, mesmo sendo “o país do futebol”, mesmo sendo tão grande, não tenha espaço para alguém como Marta.

 gif da Marta, usando jeans e uma camisa xadrez, dando um salto pra frente toda felizona, e depois um close nela sorrindo

Mas soa bem a narrativa da pessoa que veio de uma origem pobre e hoje conquistou o mundo. Porque é como se provasse o ponto de que com ESFORÇO e TALENTO a gente chega onde quiser. Mas isso é apenas parte da verdade.

Para vencer, para avançar, para fazer coisas bacanas e bem feitas, é preciso ter RECURSOS. E isso já não é tão conveniente de lembrar. Especialmente quando deparamos com o cenário de profunda desigualdade coberta pelo manto verde-amarelo-estrelado. Recursos aqui, apesar da riqueza e do tamanho do país, é coisa para poucos.

Ah, mas a mídia ama a narrativa da volta por cima. Rende matérias emocionantes, que, por sua vez, rendem audiência, que rendem anunciantes, que rendem dinheiro. E, de quebra, promove o mito da meritocracia, que basta se esforçar que você consegue, apesar de todas as adversidades.

Aí apontam para as atletas que se destacam mesmo em condições adversas, correndo com tênis velho ou treinando no campo de terra, para mostrar com isso que o talento consegue superar qualquer barreira.

É cômodo poder acreditar que um craque surge por combustão espontânea ou que uma recordista brota do chão: muito mais confortável do que investir em equipamentos, em infraestrutura, em garantir condições adequadas de treino para aquele atleta.

Isso me lembra imediatamente uma esquete do Hermes & Renato, sobre a história do garoto pobre que só queria estudar. O réporter vai acompanhando Charlinho pela caminhada agressiva e extenuante de três dias que o garoto faz para chegar à escola, andando a pé e descalço por estrada de terra, pegando carona com caminhoneiros e até atravessando um rio cheio de piranhas.

Na hora de voltar, ele pede uma carona para a equipe de reportagem, que nega, mas ó, felicitações, você é um guerreiro, etc. Quer melhor retrato que esse da mídia construindo a narrativa da “volta por cima”?

O legal é mostrar “olha como ele tem vontade de estudar!”, evidenciar o “amor à camisa”, exaltar quem faz aquilo porque ama, mesmo não ganhando um puto, porque ah, o esforço, oh, a garra.

A mesma coisa com professores, pintados como heróis e heroínas, que se dedicam ao ensino por AMOR; mas vai experimentar fazer greve e reinvindicar condições melhores de trabalho pra ver se a sociedade não cai em cima e a polícia não sai batendo.

Então tudo bem cortar bolsas de estudo, porque basta se esforçar que a gente consegue, não é mesmo? Não precisa investimento, financiamento, apoio; o pensamento mágico de que o talento supera qualquer barreira já é o suficiente e cabe tão bem nas áreas de ciência e tecnologia quanto se encaixa no esporte e nas artes.

A narrativa da volta por cima valoriza apenas o destino final (contanto que seja uma vitória), desconsiderando que o cenário inicial de adversidades podia ser mudado, em primeiro lugar.

O problema não é valorizar a atleta que ganhou o ouro mesmo vindo de uma realidade em que precisou treinar descalça num chão de terra. Sem dúvidas, ela merece todo o valor. O problema é existir uma condição em que alguém tenha que treinar descalça num chão de terra!

 ilustração animada da silhueta de uma nadadora mergulhando na água, feita em aquarela preta

E aí quem tá por baixo aprende que só vai ter valor quando conseguir dar a volta por cima, como a história que já viu tantas vezes, contada em tantos lugares. E se não conseguir, bem, talvez não tenha se esforçado o suficiente; não, imagina, não teve nada a ver com as barreiras que só estavam lá por causa da desigualdade social, ou do racismo excludente, ou do machismo que invisibiliza.  

O que a narrativa da volta por cima acaba reforçando, quase sem a gente perceber, é que as coisas continuem como estão. Porque convém que hajam exemplos, desde que esses exemplos (os que venceram apesar das dificuldades) sejam apenas exceções, e nunca a realidade.

Pra quê mudar o cenário desigual, pra quê investir em quem é bom, se com desigualdade e sem investimento elas conseguem chegar lá sozinhas? Nah, melhor assim, deixa se virarem, dá seus pulos aí. Até que dava pra facilitar as coisas, mas sabe como é, no hard é mais emocionante – e o melhor: garante que poucos cheguem lá pra realmente mudar de vida.

Sem falar que chega a ser cruel que o ônus da vitória – esforço, sacrifício e sofrimento – seja sempre individual, enquanto o bônus da vitória é celebrada como algo coletivo e vai, BRASIL!

Eventualmente, essa questão esbarra em responsabilidades. Porque o financiamento e o apoio tem que vir de algum lugar. Porque não adianta querer mais futebol feminino, por exemplo, se a mídia não oferece, se as empresas não financiam; e como elas se omitem, não tem como mais pessoas se interessarem e portanto a mídia não oferece, as empresas não financiam, etc etc. É um ciclo que se retroalimenta.

E aí só nos resta reclamar que as outras modalidades ou outros esportes não têm tanto destaque quanto o futebol masculino. Mas não sei se dá para passar por esse caminho.

Porque se for para esperar que o futebol feminino, ou o basquete, ou a ginástica artística ou qualquer outro esporte precise ter um alcance tão amplo quanto o futebol masculino no Brasil para conseguir investimento, apoio e atenção, nada vai ser transformado por um bom tempo.

Talvez seja outra lógica que precise ser transformada. A longo prazo.

Imagem dos pés de uma ginasta sujos de pó de magnésio se equilibrando sobre uma trave com a inscrição "Rio 2016". No tornozelo da atleta, uma tatuagem com os anéis olímpicos

Num país de escala continental, conseguir um alcance tão amplo é muito difícil e um feito para poucos. A lógica da mídia de massa também tem a ver com isso: acabou criando uma realidade em que só quem consegue reunir milhões de pessoas consegue atrair os recursos.

Pra viver de livros, é preciso vender milhões de exemplares. Pra viver de Youtube, é preciso ter milhões de espectadores. Pra viver de esporte, é preciso que seja o esporte favorito de milhões.

É essa a nossa tendência natural: ajudar a aumentar o que já é grande, dar atenção a quem já tem os holofotes. Afinal, quem é que não gosta de consumir sucesso, né? Ou talvez seja apenas uma questão matemática: o que já é grande, tende a ficar maior; o que é popular, tende a ser mais popular. 

Dessa forma, é claro que só poucos conseguem. Porque talento e esforço podem ser infinitos, mas recursos são sempre limitados.

Mas pensa bem, num país tão grande e tão cheio de possibilidades, porque só quem consegue chegar nesse patamar quase inacessível consegue o apoio, a atenção, o investimento?

O Brasil tem potencial de ter espaço para todo mundo, em diversas áreas.

Aqui tem gente o suficiente para criar um bom público para o futebol feminino, ou para o basquete, ou para qualquer modalidade esportiva ou artística, apenas com PARTE da população brasileira. E nem precisa ser uma parcela assim tão expressiva, considerando que o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes. Uma pequena fração disso já pode ser maior que a população de muitos países por aí.

Por isso tenho acreditado cada vez mais na ideia de pequenas comunidades.

Pode ser ingenuidade ou excessivamente utópico, mas penso que pode ser possível uma realidade em que não é preciso ter um alcance gigantesco para conseguir reconhecimento e recursos.

Nesse cenário, o envolvimento e comprometimento de determinada comunidade com os atletas, artistas e pesquisadores de seu meio é tão forte que garante que seus trabalhos sejam valorizados e que consigam uma boa estrutura para continuar trabalhando sem precisar “dar a volta por cima”, porque com esse apoio nunca estiveram na merda, abandonados.

Também é um pouco parar de olhar para o grande, para o distante, para o que está lá no alto e olhar um pouquinho para quem está do nosso lado. É parar um cadim de olhar para a vitória, para o curto prazo, e pensar no crescer junto

Não dá pra depender da mídia de massa ou de quem concentra os recursos para transformar esse cenário. Mas dá pra começarmos a nos perceber como parte de uma comunidade com interesses e objetivos em comum. De um coletivo que pode até ser menor do que uma nação, mas que é grande justamente por ser feita de gente que busca crescer em conjunto.

Que comunidade é essa? De que forma estamos contribuindo para ela crescer (não em quantidade, mas em qualidade)? Quais são os talentos dessa comunidade que merecem nosso apoio?

É uma questão de mudança de posições. Porque talvez o movimento que precisamos fazer não seja melhorar de baixo pra cima; mas de dentro pra fora.

•••

O que acho massa nesse momento de Olimpíadas é a quase automática autoestima brasileira, esse amor pela nossa gente, pelos nossos atletas e o orgulho pelo que eles fazem, consigam medalhas ou não.

Eu queria muito que isso valesse em outros momentos e para outros rolês.

A literatura, por exemplo. Às vezes é difícil acreditar, talvez por circular mais entre pessoas que leem bastante e leem de tudo, o quanto ainda existe preconceito com a literatura nacional.

Um dos comentários que vi por aí sobre meu livro me trouxe de volta a essa realidade: a pessoa dizia que, para um livro nacional, era surpreendentemente bom. Porque aparentemente só dá pra esperar lixo da literatura nacional, né?

Imagino então quantas pessoas até devem ter se interessado pela história, mas passaram longe do livro quando entenderam que era de uma autora tão brasileira quanto eles. Cadê o VAI BRASIL nessas horas?

Estranhamos o que é produzido e criado aqui porque estamos muito pouco acostumados a olhar para nós mesmos – o que também tem um pouco a ver com o que falei acima, de não olharmos para quem está perto de nós, preferir olhar quem está no alto ou lá fora, distante, inalcançável.

Nos eventos literários, qualquer autor que venha de fora, nem precisa ser tão conhecido, torna-se automaticamente mais importante pelo fato de ser gringo. As pessoas vão prestigiar, vão ouvi-lo, vão marcar presença, porque afinal veio de tão longe, como se viesse do Planeta dos Livros, aquele lugar onde os melhores escritores vivem. E também pelo que disse lá em cima: a gente tende a dar mais atenção ao que já é popular.

Pra quê ter o mesmo esforço para ver e prestigiar os autores de ficção daqui? Eles estão aqui o tempo inteiro, não é mesmo? Comem feijão igual a gente, pegam o metrô como qualquer um, qual a graça de dar atenção para só mais um mero mortal, e não um Escritor, com E maíusculo de Estrangeiro?

Mas o escritor brasileiro não deveria ser valorizado e apoiado por estar mais perto? É alguém mais próximo, mais acessível, com quem o leitor vai poder conversar ou mesmo ter um diálogo mais íntimo a partir de suas obras.

E tem tanta gente massa, escrevendo livros incríveis, mas não são lidos porque deram o azar de nascer aqui. Ficam invisíveis, porque o mercado editorial acaba preferindo autores estrangeiros, porque esses vendem. Um autor nacional é sempre um risco, um investimento incerto.

O canal Conto em Canto lançou uma interessante questão: será que as editoras é que precisam lançar mais autores nacionais para as pessoas lerem mais, ou são os leitores que precisam ler mais autores nacionais para as editoras publicarem mais livros nacionais?

O Vilto Reis, do Homo Literatus, fez um vídeo excelente indicando 10 livros brasileiros contemporâneos. Sim, só obras nacionais. Sim, só obras de autores brasileiros vivos! Entre as indicações, Ana Paula Maia, Luisa Geisler, Elvira Vigna, Eric Novello, MUITA coisa boa e que mais pessoas deveriam conhecer.

E não é só no campo da escrita que essa invisibilidade acontece. O Rogério Bettoni, tradutor e autor da newsletter Palimpsestos, lançou no Twitter uma ideia interessante: e se os booktubers, apresentadores de canais de Youtube focados em livros, já que anunciam tantos livros estrangeiros, passassem a citar o nome dos tradutores daquela obra de que estão falando nos vídeos? 

Por incrível que pareça, aquele livro gringo não foi escrito originalmente em português. A tradução é uma recriação, uma adaptação da obra original não só para o nosso idioma, mas para o nosso entendimento. Não é só um trabalho mecânico de traduzir palavra por palavra – o que resultaria em textos absolutamente sem sentido –, mas um trabalho que envolve conhecimento e criatividade, e que provavelmente foi feito por uma pessoa brasileira que, adivinha só, nunca é lembrada.

A valorização que faz a diferença está nesses pequenos gestos cotidianos. Porque as ausências, a falta de oportunidades e de apoio também são bastante sutis e cotidianas.

Não precisamos esperar por um evento de abertura olímpica para olharmos pra nós mesmos e nos orgulharmos do que somos e do que fazemos; é só olhar para o lado para descobrir bem pertinho da gente alguém fazendo algo nacional, com identidade, mas que está fora dos holofotes.

A Jarid Arraes escreveu para a Revista Blooks deste mês uma matéria imperdível sobre literatura de cordel, que é marginalizada, tirada de tempo, muitas vezes nem é considerada literatura “de verdade”. 

“Pouca gente tem contato com o cordel, porque é uma literatura que ainda vive presa num imaginário popular de exclusão; as novas gerações não se interessam, porque o cordel não está na mídia e não é a sensação popular do momento; e assim, os responsáveis pelas editoras, livrarias e eventos literários acabam por não incluir o cordel e os cordelistas em seus espaços. No fim das contas, todo mundo perde. Mas e se você conhecesse o cordel de forma aprofundada? Se pudesse enxergar seu potencial transformador na sociedade? E se tivesse a oportunidade de escrever o seu próprio cordel, algo mudaria?”

 Imagem da revista aberta na matéria da Jarid, ilustrada com xilogravuras de mulheres do sertão num fundo roxo. O título: "A literatura de cordel como tradição transformadora"

(os cordéis da Jarid você pode conhecer aqui e a Revista Blooks com a matéria completa você pode pegar de graça em qualquer Livraria Blooks ou pedir para receber no seu e-mail)

Cordel é literatura nossa. E literatura nossa é feita da nossa gente, das nossas histórias, referências e memórias. Achar que literatura feita aqui necessariamente não presta é também se encarar como algo sem valor.

Ou será que só vale ter orgulho de ser brasileiro quando está tudo embalado numa bandeira verde-amarela, tudo nas mesmas cores, e mal dá pra ver que o que há por baixo é a nossa imensa e incômoda diversidade? Só vale ter orgulho da nossa voz quando é para gritar e torcer nos estádios, mas não quando essa mesma voz está impressa na literatura?

Vale olharmos mais para nós. Para quem está do nosso lado. E perceber que valorizar quem faz parte dessa nossa comunidade não é exaltar quem está no topo para que continue cada vez mais alto, mas apoiar as pessoas que vão crescer junto com a gente.

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Ah, e você estará na Bienal do Livro de SP este ano? Vou estar lá no dia 3 de setembro à tarde no estande da Rocco, para rabiscar livros, abracinhos, conversas, ler seu horóscopo do dia ou dar ideias de nomes para seus Pokémons. Vai lá me dar um oi?

Até a próxima edição numa caixa de entrada mais perto de você!

Beijos brasileiríssimos,
 
Aline Valek

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