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Depois do sugar high sempre vem o vazio.
Bobagens Imperdíveis

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 117
vida / ficção / vídeo

Menos açúcar na ficção


Já faz um tempo que cortei relações com o açúcar. Café? Sem açúcar, por favor. Refrigerante nem chego perto. Doce já não curto muito, no máximo chocolate, e quanto mais amargo, melhor. Leite condensado, que eu comia purinho de colher, já não pratico há um bom tempo (intolerância a lactose me ajudou um bocado a romper esse relacionamento, yay).

Lá vem a diferentona saudável. Lá vem a chata que não toma café com açúcar. Lá vem a fresca que pede água em vez de refri. Ninguém diz isso exatamente, mas diz. Ou logo põem na conta do emagrecimento. Porque obviamente eu só posso ter cortado açúcar para não “engordar”.

Esse adeus também significa tentar abrir mão de muito produto industrializado, já que esses putos embutem o açúcar em tudo quanto é treco, de chás gelados supostamente saudáveis a molhos prontos de tomate, pra gente viciar e comprar mais e mais. Porque açúcar vicia.

Tem um documentário interessante que fala sobre isso. Mostra o efeito do açúcar no fígado, por exemplo. Mas o que assusta mesmo é o que faz com o cérebro. Como uma droga estimulante, o efeito é praticamente imediato: vem aquele pico de energia que nos deixa ligadas por um bom tempo. E então vem a letargia, o sentimento de vazio que te faz ansiar pela próxima dose de açúcar injetada no sangue.

Cada um com seu vício etc, inclusive cafeína é o meu, mas esse estímulo extremo provocado pelo açúcar foi o principal motivo para eu me livrar dele.

Porque o açúcar excita tanto o paladar que nos dessensibiliza para outros sabores. Por ser tão extremo, o doce faz os outros sabores parecerem ruins ou sem graça, e nos deixa insensíveis para sabores variados, complexos, sutis. E eu não quero ficar me balançando entre extremos.

Então pode-se dizer que cortei o açúcar mais por prazer do que por saúde: eu quero sentir o gosto das coisas, o que fica difícil se eu estiver anestesiada depois que o açúcar me deu um soco no queixo.

O açúcar, portanto, é a metáfora perfeita para falar sobre a nossa dessensibilização cultural. Porque vivemos numa sociedade cheia de estímulos extremos que tem nos deixado insensíveis.

Tenho pensado em como ficamos mal acostumadas. É tanta mega produção cheia de efeitos especiais e frases de efeito e trilha sonora épica, que vem um filme com longos silêncios, ou que entrega o personagem em pequenos gestos, ou com lacunas pra preenchermos com a imaginação, que logo nos entedia e nossa atenção já vai pra outra coisa, porque estímulo é o que não falta, olha outra luzinha ali.

E tem que surpreender o tempo inteiro. História com plot twist? Previsível. Tem que ter o twist do plot twist carpado, tem que dar rasteira na expectativa, tem que nos dar uma surra de bunda narrativa e visual, tem que nos dar um TIRO, porque nem um tapa na cara é mais o suficiente.

Cada filme tem que ser o melhor de nossas vidas, se não é perda de tempo e taca duas estrelas na avaliação. E mesmo que seja, no dia seguinte já estaremos buscando pelo próximo melhor filme de nossas vidas. Porque queremos de novo o SUSTINHO, aquela emoção que qualquer spoilerzinho estraga, e logo que ela acaba já partimos pra próxima, como viciados querendo mais.

Nossa mente, um macaquinho selvagem. Pulando de galho em galho.

E tão mal acostumadas queremos até que os livros sejam como os filmes. Livros exigem tempo para serem lidos, mas queremos consumir logo. Binge reading. E tem que surpreender o tempo inteiro pra fazer valer o tempo investido nele, porque não há tempo, é preciso consumir mais e mais ou ficamos por fora. Sempre o medo de estar perdendo algo.

E aí minha frustração-mor de pegar um livro achando que vai ser uma história fechada, chegar no final e deparar com um CONTINUA. A promessa sussurrada de que logo vai ter mais daquilo que por um tempo nos estimulou, feito traficante querendo fidelizar cliente, e a gente volta; e, porque a gente volta, continuam a fazer séries e trilogias quando nem precisava, quando dava muito bem pra contar a história em um livro ou filme só.

Esse açúcar no conteúdo que consumimos vai deixando nosso cérebro mole, ultracozido de tanto estímulo, tão pastoso que não sentimos qualquer coisa que fique abaixo do extremo. Só sentimos a porrada e queremos que batam mais forte a cada vez. Não sentimos o sutil – aquilo que fica além da emoção imediata do apelo visual e do plot twist.

Como bem disse Elvira Vigna: “a ‘emoção’ de enredo é em linha reta. A emoção abrangente se espalha, inclui, fica em pessoas, lugares. É a literatura da palavra e do personagem”. 

E não para na ficção essa busca doida por emoções extremas o tempo inteiro. Está também nas ficções que criamos no cotidiano, aquelas que usamos para nos tornar mais interessantes para os olhos dos outros. Porque não basta consumir, é preciso SER o açúcar.

Na vida, durante a maior parte do tempo, nada surpreendente acontece. E a gente fica tão ansiosa olhando as timelines alheias, as pessoas todas sendo tão legalzonas e ativas e fazendo coisas e indo a lugares diferentes, que a gente dá um jeito de se editar, porque também temos que surpreender e ser tão interessantes quanto um blockbuster, porque de certa forma estamos concorrendo com tudo isso – do último lançamento da cinema à treta de celebridades da vez – pela atenção umas das outras.

Impossível ser interessante o tempo inteiro, para sempre. Mas nos descabelamos pra ser, porque precisamos dos corações virtuais – e ficamos no aguardo deles, só mais um estímulo para nos viciar, desses que agem rápido e logo nos fazem querer mais.

E para consegui-los, estamos dispostas a criar ficções de nós mesmas. Uma ficção em que sempre temos algo espirituoso, engraçado e inteligente a dizer numa conversa. Uma versão nossa para impressionar os outros, como nós mesmas exigimos de cada personagem das histórias que consumimos.

Mas esse impressionar e surpreender o tempo inteiro a longo prazo satura. É insustentável.

Ontem assisti a um filme gracinha, Toast. O garoto protagonista, em conversa com o amiguinho, diz: “Não quero ser interessante”. Isso me chamou a atenção, essa recusa a ser interessante. Por acaso ou não, o personagem, que sonha em ser cozinheiro, tem um paladar sofisticado que o faz buscar os mais variados sabores. 

A mesma variedade de sabores que eu tento buscar nas histórias que leio e assisto. Porque nem tudo precisa ser estimulante como o açúcar. Nem o café, nem os livros que vou ler acompanhada de uma boa xícara dele.
 


A mulher que inaugurou a literatura fantástica brasileira


Você conhece Emília Freitas? Ela foi uma escritora cearense e uma das pioneiras da literatura fantástica brasileira. Em 1899, publicou o romance “A Rainha do Ignoto”, uma história sobre uma sociedade secreta de mulheres liderada por uma rainha com espírito justiceiro e estranhos poderes.

Escrevo sobre o livro e sobre a autora na minha coluna semanal da Carta Capital, que você pode ler aqui. Bora ler mulheres?

 A capa do livro "A Rainha do Ignoto", de Emília Freitas, cercada de flores secas e coloridas.

 

O escorrer dos dias


Durante alguns dias, entre maio e junho, gravei pedacinhos do meu dia e depois juntei tudo em um vídeo só. Subi para o Youtube e você pode assistir aqui. Spoiler: nada surpreendente acontece.

 Imagem em preto e branco da silhueta de um prédio desenhada pelo pôr-do-sol. Sobre a imagem, o título "O escorrer dos dias".
 


Questão dos nossos tempos


Se uma árvore caiu no meio da floresta e não teve um milhão de visualizações no Youtube, será que ela realmente caiu?
 


Leituras selecionadas


:: Elvira Vigna lê trecho de “Como se estivéssemos em palimpsestos de putas”.

:: Ghostbusters de 1984 não é, como muitos pensam, original.

:: Opinião póstuma de Douglas Adams sobre Pokémon Go.

:: Artistas que são microbiologistas e suas pinturas feitas com bactérias.
 


Polvo, melhor emoji


Refletindo sobre os emojis que mais uso, percebi que tento ser uma pessoa mais fofa do que realmente sou. Os três que mais uso: coração azul, sorrisinho tímido e beijo no coração.

 print dos meus emojis mais usados

Que tédio de pessoa, né? Daí passei a pensar naqueles que eu gostaria de usar mais. Foi então que meus olhos se abriram para o potencial, para a graça e para a profundidade de significados do emoji do polvo.

O polvo pode ser usado em uma variedade de situações, mas sobretudo no lugar do já batido coração, posto que: a) polvo é amor; b) polvos possuem três corações, o que significa um combo triplo de ♥︎.

O polvo em sua forma de emoji também pode ser usado como sinônimo de “abraço”, um gesto que nunca encontrou um emoji tão adequado quanto a força e a habilidade dos tentáculos deste octópode.

Então não estranhe se encontrar alguma mensagem minha num contexto em que não caberia um polvo, e ainda assim ele estiver lá, todo tentaculoso.

 Emoji do polvo, que é marrom e tem só 4 tentáculos (?)

E você, quais são seus emojis mais usados?

•••

Metade do ano já se foi. Metade. A barrinha de progresso de 2016 está em 50%. E tanto já aconteceu. Imagina o que vem por aí.

Ou deixa que eu imagino: teremos alguma reviravolta política que vai deixar uma galera indignada e/ou chocada, mais alguma profecia de fim do mundo que se provará furada (já que o mundo acabou há algum tempo e estamos vivendo no purgatório) e algum projeto super importante que não teremos tempo de terminar até dezembro.

Ah, e com certeza teremos mais um bocado de edições de Bobagens Imperdíveis. Você vem comigo?

Se gostou desta edição, pode compartilhar sem medo pela internet através deste link e fique à vontade para me escrever. Obrigada pela companhia e pela leitura :)

Beijos zero açúcar,

Aline Valek

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