Copy
Palavra do dia: 'hecatombe'
Bobagens Imperdíveis

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 114
arte / livros / vida

Ainda restará arte


“Sobreviver não é o suficiente”: alguém disse isso em algum episódio da série Star Trek: Voyager, mas essa é apenas uma lembrança distante para o grupo de artistas que escolheu a frase como mote da Sinfonia Itinerante, que leva peças de Shakespeare de cidade em cidade, num mundo pós-apocalíptico em que a humanidade quase acabou por conta de uma epidemia avassaladora.

Distopias pós-apocalípticas são bons pretextos para exercícios especulativos sobre questões como: o que levaria nosso mundo a acabar? Seríamos um dos sobreviventes? Será que nos daríamos melhor com uma espada ou com um arco-e-flecha?

Porque claro, gostamos de nos imaginar como o sobrevivente do apocalipse que anda sempre armado e sabe exatamente o que fazer em situações de perigo, ainda que na vida real tenhamos dificuldade até para puxar o papel toalha do banheiro público sem desperdiçar umas cinco folhas pelo menos.

Essas histórias podem trazer zumbis, epidemias ou grandes guerras, mas são, essencialmente, sobre sobrevivência. A principal motivação dos personagens é sobreviver e como conseguir se virar em um mundo sem Snapchat, memes ou burocracia.

É fácil cair em clichês e fórmulas prontas nesse tipo de história, mas alguns autores de cenários pós-apocalípticos conseguem surpreender, como é o caso de Emily St. John Mendel. Ela escreveu Estação Onze,um dos melhores livros apocalípticos que já pude ler – e o mote “sobreviver não é o suficiente” tem tudo a ver com isso.

Capa do livro Estação Onze, de Emily St. John Mandel

A história é sobre uma epidemia que faz um grande estrago na população mundial e em como as pessoas levavam suas vidinhas até então; não há mais internet, nem redes sociais, nem eletricidade, nem governo, nem promoções de passagens aéreas. Os poucos sobreviventes se reorganizam em pequenas cidades, na tentativa de reerguer a humanidade depois da grande Gripe.

O que a gente espera de um cenário assim é encontrar bravos sobreviventes e gente maluca querendo matar uns aos outros, quem sabe até com algumas boas cenas de luta. Mas não é exatamente o que Emily entrega.

Estação Onze foge um pouco das narrativas tradicionais de sobrevivência no apocalipse ao estruturar o eixo da história ao redor da Sinfonia de Itinerante e de histórias cruzadas de uma das atrizes do grupo; Kirsten era uma criança quando a epidemia começou e atuava como atriz mirim numa peça protagonizada por um ex-astro de cinema, que morre no palco, durante a apresentação, vítima de um infarto fulminante – apenas um dia antes de toda a merda apocalíptica explodir.

O livro vai e volta no tempo, mostrando o mundo antes e depois da pandemia, explorando principalmente as relações de Arthur, o ator que não chega a viver para ver o mundo que conhecia se reduzir a ruínas.

Dessa forma, o mundo do entretenimento e a arte ganham protagonismo na trama, ao trazer outros personagens ligados a Arthur, como um ex-paparazzi e a ex-mulher de Arthur, Miranda, que criava uma história em quadrinhos de ficção científica sobre uma estação espacial – a Estação Onze, que dá nome ao livro.

Miranda desenhando, escrevendo e reescrevendo os diálogos de Dr. Onze e seus outros personagens numa história em quadrinhos; Kirsten interpretando Cordélia em uma montagem itinerante da peça Rei Lear; antes ou depois do fim do mundo, a arte está lá.

E isso numa história sobre sobrevivência, num gênero de histórias em que a arte é um aspecto negligenciado ou totalmente inexistente, é algo bastante significativo.

(em The Walking Dead, por exemplo: nenhum dos personagens principais se engaja em atividades artísticas, a não ser a arte de acertar sequências de headshots em zumbis; o máximo de artista que temos é uma personagem que cantava para os amigos em torno da fogueira – que morreu de forma trágica – e a tentativa de outra personagem de fazer a escultura de uma coruja – que foi destroçada nos episódios seguintes)

Não que seja um problema criar um cenário distópico em que não haja espaço para a arte; é apenas uma questão de escolha sob qual prisma observar um hipotético apocalipse. Mas na escolha de Emily reside um questionamento importante: o mundo como o conhecemos não existe mais; mas a arte sobreviveu. Por quê?

Em um dos capítulos, acompanhamos o processo criativo de Miranda: ela desenha uma cena em que Dr. Onze está de pé sobre um rochedo observando o pôr-do-sol, com seu cachorro ao lado. Ela tenta imaginar qual é a linha de pensamento que cabe melhor para aquela cena, escrevendo e reescrevendo várias vezes até chegar à frase que julgou satisfatória: “Contemplei meu lar defeituoso e tentei esquecer a doçura da vida na Terra”.

Muitos anos depois, quando a sociedade tenta juntar os caquinhos do que sobrou depois da grande Gripe, a jovem atriz Kirsten relê um exemplar de uma antiga história em quadrinhos que guarda com muito cuidado. “Contemplei meu lar defeituoso e tentei esquecer a doçura da vida na Terra”, pensa o Dr. Onze. E aquela frase, escrita em outro mundo, consegue se encaixar perfeitamente no mundo em que Kirsten vive agora.

Porque ela conheceu “a doçura da vida na Terra”, antes da humanidade quase acabar; e agora contempla seu novo lar, um mundo “defeituoso” por suas ausências e lacunas, tentando se esquecer do que aquele lugar foi um dia. É uma frase emblemática, por conseguir transcender ao tempo e dialogar com uma realidade completamente diferente daquela em que foi criada.
 
Em outro momento do livro, conhecemos mais sobre a Sinfonia Itinerante da qual Kirsten faz parte. Há um trecho que conta que eles, no início, até apresentavam algumas montagens mais modernas, mas as que faziam sucesso eram sempre peças de Shakespeare. Com o tempo, eles passaram a apresentar apenas peças shakespearianas, porque eles se deram conta: “as pessoas querem o que houve de melhor no mundo”.

Nos dois exemplos, a arte funciona como uma ponte para uma outra realidade, como um canal de conexão com um mundo que não existe mais. A arte é uma atividade criadora de conexões e de sentido.

Com ela, significamos o mundo ao nosso redor; e se agarrar a ela em um cenário em que não nos resta mais nada talvez seja tão importante para a sobrevivência quanto aprender a manejar facas de combate ou a encontrar alimentos.

Li Estação Onze faz um tempo, mas a história, guardada em minha memória, veio à tona nos últimos dias e me fez pensar sobre o papel do arte – e se ainda há espaço para ela mesmo com o conservadorismo e o ódio dominando tantos territórios, em um mundo que parece estar desmoronando ao nosso redor.

Mas talvez seja exatamente nesses momentos em que precisemos mais da arte. Não só para conseguirmos sobreviver, mas também porque só sobreviver não é o suficiente.

Apesar da arte ser constantemente subvalorizada, vista como algo supérfluo ou até inútil, ela é o pilar que sustenta o que há de humano em nós: nossa expressão, nosso olhar do mundo, nosso impulso em nos conectar com o outro, ainda que seja um “outro” fictício, ou um “outro” que reside em nós mesmos mas que só conseguimos acessar através da arte. 

Ela é o que nos ajuda a não nos desmoronar por dentro, ao nos permitir elaborar um sentido para a existência, ainda que estejamos cercados de absurdo.

Em um trecho do livro, Emily escreve:

“– É um voo grátis para Los Angeles. – Só aquilo já parecia uma prova de que o mundo estava acabando, porque eles estavam na era em que as pessoas pagavam taxas extras para levar bagagem adicional, para poder embarcar primeiro e conseguir enfiar as malas nos compartimentos acima das cabeças, antes que o espaço ficasse todo tomado, para ter o privilégio de sentar nas fileiras onde ficavam as saídas de emergência, com seus riscos de vida ou morte e seus cinco centímetros adicionais de espaço para as pernas.”

Não precisamos esperar por um cenário apocalíptico para tentar buscar na arte um refúgio, uma fonte de sentido em meio ao caos; o absurdo cotidiano em que estamos imersos – desde a ansiedade que criamos com nosso status em redes sociais até o que pagamos para ter um conforto extra num vôo doméstico – já pede por uma ressignificação, ou uma fuga para estações espaciais imaginárias onde podemos contemplar, com distanciamento, nosso lar defeituoso.

Precisamos da arte – e precisamos de quem se dedique a criá-la – especialmente em momentos de ruptura. Quando as coisas parecem perder o rumo. Quando as pessoas atingem níveis preocupantes de embrutecimento.

E precisamos porque é tênue a linha que nos separa de corpos que apodrecem aos poucos enquanto caminham sem direção pela Terra (e esta é a própria essência da mensagem contida em The Walking Dead, aliás), e talvez seja a possibilidade da arte que risque essa linha no chão.

Pode parecer distante a ideia de ver nosso mundo acabar; mas a verdade é que nosso mundo está constantemente acabando para dar lugar a outro. Só podemos esperar o que vier em seguida – e com alento imaginar que, ainda que não sobre nada, ainda restará arte.



Rabiscarei livros no Rio!


Data confirmada para a tarde de autógrafos no Rio de Janeiro: será no dia 9 de julho, próximo sábado, na Livraria Blooks em Botafogo, às 15h! Você que cobrou, você que pediu, você que esperou, você que chegou agora e não sabia de nada mas estará no Rio: espero por você lá!

Tasca confirmação lá no evento para não esquecer e chama azamiga tudo! Em São Paulo e Brasília os leitores de Bobagens marcaram presença; espero conhecer a turminha carioca também :)

Tarde de autógrafos no Rio de Janeiro: 9 de julho, 15h, Livraria Blooks em Botafogo
 

Águas-vivas por aí


:: O Adônis fez uma resenha de águas-vivas no Skoob: “Nem um pouco óbvio, o livro te dá poucas pistas do que vai acontecer – o final é um verdadeiro espetáculo –, até porque é um típico caso em que o percurso é tão interessante quanto o destino.” 

:: Resenha no blog Corujas de Biblioteca: “É um livro cheio de informação marinha, sobre as espécies e o próprio oceano, mas isso não faz a narrativa ser cansativa. Envolvente e muito interessante, As Águas-Vivas Não Sabem de Si é um livro que te deixa refletindo por um bom tempo depois de virar a última página.” 
 


Para você ouvir


Porque o som é parte importante da história de As águas-vivas não sabem de si, resolvi gravar a leitura de um trechinho.

Coloque os fones de ouvido, aumente o som, feche os olhos e vem mergulhar com a Corina.

gif animado de um vinil tocando
 

Os poderes da internet


Da mesma forma que usar CAPS LOCK na internet significa que estamos gritando, usar coraçãozinho significa que estamos falando com voz de neném. Colocar <3 faz automaticamente com que toda a frase dita antes do sinal seja lida mentalmente com esta vozinha e entonação.

Use com moderação <3

(viu só?)

 

Uma rodada de links grátis
pra galera


:: Amanda Palmer lê o poema de E.E. Cummings: “Humanity I Love You”.

:: Não costumo gostar de textos nesse modelo “faça isso, não faça aquilo”, mas este tem bons pontos e que já aplicava pra mim, como: “Reconheça aqueles que nunca vão ajudá-lo e os ignore; indignação e rancor são gasto de energia.”

:: Se a literatura não serve pra nada, será que teria sobrevivido e chegado tão longe na história da humanidade? Para que serve a literatura, afinal?

:: Muito bom este e-zine contando um pouquinho da história das mulheres da Geração Beat, de Hettie Jones a Diane Wakoski, com poesias e trechos de romances delas.

:: Vídeo bem bacana e todo animado sobre a evolução do livro como objeto.

:: Dicas de um investigador da FBI (!) sobre como ganhar negociações ou se posicionar bem numa conversa.

:: Você sabe como os cineastas fazem para criar a ilusão de personagens gigantes ou nanicos (como o gigante de Game of Thrones, Hagrid em Harry Potter ou os hobbits)? Este vídeo explica muito bem.

•••

Na semana passada te apresentei à Minha Central de Newsletters, uma lista onde reuni as newsletters que acompanho ou acompanhei e passei a acomodar também a indicação das outras pessoas. A lista está sendo sempre atualizada (e já cresceu BASTANTE em uma semana), então achei que valia a pena linkar aqui de novo: tem indicações novas lá para você conferir.

 

Troca de perguntas


Pergunto para você: se o mundo como o conhecemos deixasse de existir, se sobrevivêssemos a um cenário apocalíptico (zumbis, epidemias, macacos dominando o mundo, não importa), do que você mais sentiria falta do mundo em que vivemos hoje? Por quê?

Agora você me pergunta: qualquer coisa. Sim, o que você quiser. Você pode me fazer a pergunta por email, mas resolvi criar um formulário para você enviar sua pergunta anonimamente (que criei para encorajar os mais tímidos a participarem!).

Estou pensando em responder num vídeo. Será? Ou vou respondendo aos pouquinhos na newsletter? Não sei. Vamos ver o que sai disso. Pode me perguntar sobre escrita, sobre meu livro, sobre mim, sobre você, sobre o mundo, pedir conselhos, mandar dúvidas sobre os assuntos que vão cair na prova.

Só clicar aqui.

•••

Espero que tenha gostado desta edição e que nos encontremos de novo na próxima. Se gostou do que escrevi, pode compartilhar através deste link para mais pessoas lerem.

Enquanto isso, vamos nos refugiar na literatura, conhecer outros mundos, viver em outras peles. Criar. Ler. Porque sobreviver não é o suficiente.

Beijos pós-apocalípticos,

Aline Valek

Nas edições passadas...


Para ver o arquivo com as edições passadas, clique aqui.

Se curte receber meus e-mails, indique prazamiga, mandando este link. Obrigada!

♥︎ Pague a autora
Atualizar suas informações || Cancelar assinatura

Email Marketing Powered by MailChimp