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Palavra do dia: “cochonilha” 

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 101

Tenho minhas dúvidas se vivemos numa época estimulante.
 
Há sempre o que fazer, é verdade. Há sempre coisas para serem vistas, sim. Há sempre mais textos, mais novidades, sempre coisas piscando na nossa cara, sempre algo pedindo por atenção, sempre cócegas sendo feitas no nosso cérebro, um joguinho no celular, uma música pop, uma timeline a ser rolada, alguma coisa, qualquer coisa, todas as coisas, o tempo inteiro.
 
Mas o que isso tem de estimulante? Não sei.
 
Os textos, por exemplo. Ou menos que isso: os títulos. Que eu nunca fui boa de criar títulos, não é segredo. Mas essa nova escola de títulos que vem se firmando na internet é um tédio absoluto. O que há para ser dito já expresso no título, títulos de três linhas, cheios de palavras, assim, mais explicativos que receita em verso de embalagem de creme de leite.
 
“5 dicas para o sucesso”. “Como não ser original”. “Por que trabalho em casa (dica: nada tem a ver com produtividade)”. “Por que comprometi a primeira hora do meu dia para escrever meu livro”. “7 coisas que você precisa fazer para aniquilar o chicote do capitalismo”. 
 
Isso nos primeiros textos em inglês que esbarrei ao entrar no medium. Você não teria muito trabalho em encontrar outros exemplos. Em português até. Principalmente.
 
O resumo do texto logo no título para nos poupar tempo. Afinal, tantas coisas pra ler. Não dá pra perder tempo lendo coisas. Já tenho que clicar sabendo o que vou encontrar, para não ter erro, para não correr o risco de ler mais de mil palavras e no final chegar à conclusão de que não entendi muito bem. 
 
Se não for para buscar as respostas certas, é perda de tempo. Se for para levantar questões que não vou conseguir responder com um discurso pronto, é perda de tempo. Se não for pra me mostrar algo já pronto, bem acabado, perfeito, é perda de tempo.
 
O que fazer com todo esse tempo poupado por títulos matadores e textos bem diretos (e curtos, é preciso que sejam curtos) é uma questão em aberto. Logo, perda de tempo.
 
Então os títulos já me dizem o que vou ler. O texto já me diz o que pensar. Porque não há tempo para ler, muito menos pensar. Quero concordar com alguma coisa, compartilhar e seguir em frente. Transfiro o pensar do cérebro para a ponta dos meus dedos, aqueles que até tremem, entusiasmados, com a possibilidade de compartilhar algo já pronto, certo, conclusivo que diz aos outros o que penso e quem eu sou.
 
Isso é tão estimulante quanto o açúcar e os sabores artificiais que em excesso colocam na nossa comida. Informação tão processada quanto nuggets de frango (que de frango têm mais o conceito do que o frango em si). E não só a informação; a experiência também já vem mastigada.
 
Queremos já acertar de primeira. Vamos atrás das respostas na última página, buscamos o manual e para tudo há manuais: para dizer a coisa certa, para saber o que escrever, o que fazer para ter sucesso, como não ser um babaca, como ser mais você, como ser, como.
 
Olivia Maia escreveu: “vou lendo os títulos da minha lista de leitura do medium e quase caio pra trás. todo essa técnica asquerosa pra ganhar mais clicks, mais leitores: listas, números, uma autoajuda moderninha e descolada para empreendedores. tantas as pessoas para nos dizer como viver, como viajar, como comprar, como acordar pela manhã, como fazer dinheiro, como ser uma pessoa melhor, uma pessoa mais feliz. (…) é a única forma de ser lida?”
 
E o desespero de errar nos engole, fica maior que a gente, maior que o mundo. Fica maior que a importância de ralar os joelhos, de quebrar a cara, de se perder, de se arriscar a contar uma história numa língua que não domina muito bem.
 
Recorremos ao gabarito rápido demais. Porque é fácil acessar uma solução para os nossos problemas em vez de tentar pensar neles um pouquinho, por nós mesmos. Mas principalmente pelo medo de errar. Porque é preciso acertar. Porque é preciso mostrar que se sabe mais que os outros, mesmo que se esteja lendo o manual como o mais novato dos principiantes.
 
Vou comprar um novo equipamento? Tem que ser o melhor equipamento, para mostrar que manjo. Vou comprar um papel higiênico? Tem que ser o melhor, porque cada mínima escolha da minha vida precisa ser a mais acertada.
 
E um alarme soa em algum lugar me dizendo vai logo com isso que não há tempo, que as pessoas têm mais o que fazer, que estão só esperando a conclusão para ver se concordam ou não. Anda logo com isso que nem parece um texto pronto, que sabe onde vai dar, que já previu as armadilhas argumentativas no caminho e se prepara para desarmá-la todas, para ser à prova de erros, invencível, compartilhável.
 
Pois bem. É que não estou aqui pra isso.
 
Quero escrever sobre o que não sei ainda. Quero investigar os assuntos, deixar pontas soltas, levantar perguntas. Quero não encerrar questões. Quero começar a desenvolver um raciocínio num texto e terminar alguns textos depois – e não eliminar a possibilidade de mudar de ideia no meio do caminho.
 
Quero não impor um pensamento, mas chamar para pensar junto. Quero mostrar as estruturas do que estou escrevendo, mesmo se parecer errado, torto, inacabado. Quero mostrar cru e depois servir cozido. Quero convidar as pessoas a participarem desse processo.
 
O que peço não é pouco. Fazer isso leva tempo. Expõe. Pode ser desconcertante. Exige atenção e paciência. Mas faço como uma forma de me desafiar: me forçar a errar mais, a arriscar caminhos que normalmente eu não percorreria. E vou fazer isso aqui, para todo mundo ver, mesmo se der errado. Especialmente se der errado.
 
O açucarado das informações prontas e rápidas não me parece estimulante o suficiente. O estímulo que procuro reside nas coisas que não entendo, que me inquietam, que estão ali não para que eu concorde ou discorde, mas para que eu reflita. É sobre isso que vou escrever, <<Seu nome>> – e compartilhar com você para saber que perguntas novas poderemos fazer depois.
 
Tempo perdido não é o que a gente gasta errando ou construindo um pensamento que pode demorar a ficar pronto; perdido é o tempo que a gente passa deixando que nos digam o que pensar.
 
 

Chegou agora?

 
Depois da 100ª edição da newsletter, entramos numa breve midseason enquanto eu ajeitava algumas coisas para mais um ano de trabalho (que já chegou com o pé na porta, diga-se de passagem).
 
Nesse meio-tempo, chegou um montão de assinantes novos e bateu aquele leve constrangimento de quando você já está numa festa há um tempão, totalmente bêbada, e chega uma remessa de gente sóbria não entendendo nada do que você está falando.
 
Então primeiramente: receba minhas boas vindas, entre, fique à vontade! Aqui vão algumas dicas para você se ambientar por aqui:
 
– Os temas que costumo abordar são os mais variados possíveis: de questões existenciais a comentários sobre programas de TV, de literatura a ciências, de coisas que aconteceram durante a semana a histórias completamente inventadas. Se quiser ter uma ideia de alguns dos temas já tratados, leia isso aqui.
 
– Pelos ícones no início de cada edição, você pode ter uma ideia do que será abordado. Sim, aquelas bolinhas coloridas são meu índice.
 
– Eu tento com força não escrever textos muito longos, mas acaba acontecendo com frequência. Mas você não precisa ler tudo e sempre virá uma próxima edição que talvez você goste mais de ler.
 
– A qualquer momento você pode cancelar sua assinatura, clicando no link posicionado no rodapé de cada edição, porque longe de mim continuar te enchendo de texto que você não quer mais ler – mas as portas estarão sempre abertas para você voltar.
 
– Você pode responder as edições da newsletter sempre que quiser: recebo, leio e tento responder todos os e-mails que chegam. 
 
– Temos um grupo secreto no Facebook para os leitores de Bobagens Imperdíveis trocarem ideias e links bacanas. Se quiser participar, basta me mandar por e-mail o link do seu perfil para eu te adicionar como amiga e te colocar no grupo.
 
– Para evitar que as newsletters caiam no spam, adicione meu e-mail aos seus contatos: escreva@alinevalek.com.br. Se você usa Gmail, a newsletter costuma cair na aba “Promoções”, mas você pode movê-la para a aba que você preferir e “ensinar” o Gmail a sempre mandar a newsletter para esse lugar. 
 
– Se tiver problemas para encontrar onde a newsletter está caindo, tente digitar “Bobagens Imperdíveis” na busca do e-mail. 
 
– Se você não tiver recebido alguma edição ou simplesmente quiser ler as edições passadas, você sempre pode se servir do arquivo, que aparece em destaque no final de cada edição: todas as newsletters estão guardadas lá! Garimpe à vontade.
 
– A frequência de envio mudou nesta nova temporada: antes semanal, agora a newsletter será enviada 2 vezes por mês (ou mais, mas não quero prometer nada), sem data e hora marcada. Mas vou tentar enviar ou na sexta à noite, ou sábado de manhã, ou segunda de manhã, que são os momentos em que os leitores mais abrem a newsletter :)
 
Ah, <<Seu nome>>! Se você está chegando agora e quiser me contar como descobriu a newsletter, vou adorar saber! Tô bastante curiosa. 
 
 

O novo visual da Val

 
Se você acompanha Bobagens há um tempo deve ter percebido, ao abrir o e-mail, que tem algo diferente: sim, Val, mascote e entregadora desta newsletter, está de visual novo!


 
Seu look, que passou de vintage a algo mais retrofuturista, mostra que seu trabalho evoluiu. É que antes Val entregava a newsletter de bike, passando de caixa de entrada em caixa de entrada, e você deve imaginar a canseira, né?
 
Agora ela está numa estação espacial, e pode fazer a entrega via satélite, apenas apertando alguns botões. Ela está bastante satisfeita com o novo local de trabalho, onde também consegue monitorar novas descobertas astronômicas e aventuras espaciais.
 
(assim também torna possível o envio da newsletter para outros planetas; então, se você é de fora do sistema solar, receba minhas boas vindas e espero que o tradutor interplanetário esteja funcionando direitinho)
 
O que achou? Espero que tenha gostado tanto quanto a Val; ela está achando super confortável esse negócio de ficar de macacão espacial o dia inteiro.
 
 

Resultado do sorteio

 
Chegou aquele momento gostoso de revelar os ganhadores dos presentes que anunciei na edição passada, eba! Vamos ao sorteio?


 
And the Oscar goes to:
 
1. “Desperdiçando Rima” vai para: Renata Brito dos Reis
2. “Alif, o Invisível” vai para: Victor Adriano Ramos
3. “A Arte de Ser Normal” vai para: Marília Barros
4. Aquarela original “Sereias são mamíferas” vai para: Victor Sousa
5. Aquarela original “Rey & Furiosa” vai para: Taís Abatti



Parabéns aos ganhadores e ganhadoras! A produção (também conhecida como euzinha) entrará em contato com um e-mail de confirmação para pegar o endereço de vocês \o/
 

Queria te mostrar

 
– Os 2 últimos vídeos lá no meu canal: “Joelhos calejados de Lego”, numa vibe sdds-infância-anos-90, e “A tecnologia não me afastou das pessoas, quem fez isso fui eu”, sobre esse negócio de na internet estarmos sozinhos, todos juntos. 


 
– Este texto que escrevi sobre autopublicação digital e as possibilidades que esse formato oferece para os autores.
 
– As Cartas da Dona Mexerica para Situações de Emergência, conselhos motivacionais ilustrados que você pode baixar de graça aqui.

“Aline Valek nos mostra como o cotidiano foi transformado por gente como a gente em um monstro que só liga para aparências, que tem a competitividade como seu motor e que impõe o uso de máscaras de pessoa-comum para todos e converte, assim, nossa individualidade em algo tão vergonhoso que soa quase clandestino ser você mesmo.”
 
Thaís Campolina, em resenha do meu livro no site Alpaca Press.
 
Ainda não leu Pequenas Tiranias? Você pode comprar o livro aqui :)
 
 

Indicações amigas

 
Resolvi reservar um espaço para eventualmente indicar coisas maravilhosas que eu queria que o mundo conhecesse, como forma de valorizar o trabalho de artistas que admiro.
 
São indicações vindas do coração, que compartilho porque realmente gostei de alguma coisa. Um jabá assim do amor, porque não estou ganhando nada com isso! Espero que goste do que tenho para te mostrar hoje:



Comprei esse caderninho encorajador no Estúdio Abraço. A arte da capa é da Kaká Lobo, que está fazendo uma série de caligrafia linda. Aloxinha é aqui e você pode ver mais lindezas no perfil do instagram.



Conheci Carol Rodrigues num debate na Casa das Rosas e estou encantada com a leitura do seu primeiro livro, “Sem vista para o mar”. Sua escrita é refrescante, cheia de personagens vivos e de histórias que só renovam minha vontade de fazer literatura.


 
A Jarid Arraes tem uma série de cordéis biográficos que nos apresenta, com muita poesia, às histórias de mulheres incríveis que deveríamos conhecer melhor, como Carolina Maria de Jesus, Dandara e Tereza de Benguela. Inspiradoras, todas. Você pode escolher os seus aqui.
 
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Gostou de algo que viu nesta edição?
 
Se não gostou, segue em frente, tem outras newsletters. Mas segue devagar; porque vou sem pressa nenhuma de acertar.
 
Beijos sem medo de errar,
 
Aline. 


Para ver o arquivo com as edições passadas, clique aqui.

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