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Eu ôtra vez.


Olá, olá! Sobrevivemos todos a mais uma semana nesse mundo que nos faz portadores das mais profundas ansiedades cotidianas? Eba, parece que sim.
 
Argh, desculpe se já começo de uma forma nada animadora, da mesma forma que me desculpo pelo clima das últimas newsletters.
 
(eu ter falado sobre isolamento na última edição deve ter assustado muita gente, não é mesmo algo fácil de expor numa cultura em que todo mundo precisa mostrar que está o tempo todo feliz e muito bem, obrigada).
 
Dei uma lida nas primeiras edições de Bobagens Imperdíveis e senti que meu tom mudou muito de uns tempos pra cá, quase como se a editoria desta newsletter tivesse sido assumida por outra pessoa.
 
(será que a real Aline Valek foi raptada e trocada por uma de suas 27 clones, a mais emo delas, que se chama Augusta, tem um corvo de estimação e que agora redige a newsletter? Como a original dificilmente sai de casa ou dá as caras, nunca saberemos)
 
Então passei a semana refletindo sobre o que eu tenho colocado no papel (numa tela 13” pra ser mais exata) e é claro que são várias questões envolvidas, porque o ser humano é esse novelo de pontas soltas que nunca se resolve, mas acho que isso também é influência do tipo de coisa que tenho consumido.
 
(e não me refiro apenas a derivados do milho em excesso)
 
Pense que os nossos dias se dividem em dois momentos, uma divisão quase tão certa quanto existe dia e noite para todos: os momentos de input e de output. Entrada e saída.
 
Que óbvio, você diz. A gente come e caga. Ouve e fala. Lê e escreve. Entra e sai. Recebe e visita. Sim, a gente faz isso o tempo todo. Mas percebi que quase nunca PENSO sobre isso. É o tipo de coisa tão automática quanto apertar um botão, quanto ver alguém bocejar e bocejar junto, quanto colocar um pé depois do outro depois do outro e andar.
 
Mas é quando a gente vive no automático que as coisas começam a desandar.
 
Então resolvi prestar atenção no que entra e sai, como quem coloca uma câmera de segurança na entrada de si mesmo para ver o que está passando por ali. O que percebi é que não dá pra confiar em liberar a catraca e deixar qualquer coisa passar; e cada vez mais tudo ao nosso redor parece facilitar isso.
 
Pra quem lê e se interessa por conteúdo e internet, isso já é bola cantada faz tempo: a tendência agora é a centralização de conteúdo nas grandes redes como o Facebook, que faz de tudo para evitar que as pessoas saiam do ambiente dele e saiam por aí navegando em outros sites ou blogs. Eles querem que as pessoas fiquem o máximo de tempo possível conectadas ali dentro, onde elas já não precisam buscar ativamente por conteúdo, mas apenas receber passivamente o que a timeline derrama sobre seus olhos.
 
Isso significa que não é você quem controla sua catraca, mas alguém que vai lucrar vendendo propaganda pra você. Tipo o que a TV já fazia, né.
 
É o que também me incomoda em algumas propagandas de banco quando ele vem com aquele tom de amigão, dizendo algo do tipo “dê atenção para as coisas valiosas da sua vida e deixa que a gente cuida do seu dinheiro <3”. Sei lá, mas não deveria ser extremamente desconfortável a ideia de alguém controlando algo importante pra você em nome da COMODIDADE? E não é isso que o Facebook está fazendo quando cria um ambiente em que ELE cuida do que você vai ver ou não? Não é isso o que acontece quando a gente só vê o que os outros mostram pra gente, repetindo sempre os mesmos assuntos na rede social que é um passarinho, mas bem podia ser um papagaio?
 
O conteúdo que absorvo no dia a dia não é menos valioso por ser algo que não posso tocar. E as pessoas parecem não se importar muito em deixar que terceiros administrem a informação que elas vão receber. Nisso, dizemos adeuzinho ao nosso poder sobre nosso próprio momento de input.
 
Retomar esse momento exige ter consciência dele.

 
Na entrada, estão todas as coisas que a gente lê, escuta, assiste, prova, sente, descobre e aprende. Mas qual o critério para o que deixamos entrar? Será que eu quero ler isso? Será que quero continuar me irritando e alimentando minha ansiedade com o que essa pessoa fala? Por que estou vendo isso? Por que não estou vendo aquilo? O que vou buscar hoje pra aprender? O tempo de ficar rolando a esmo a timeline daria pra ler quantas páginas daquele livro? Por que eu vou continuar a ler esse livro até o final se tá uma bosta? Só pra dizer que eu li? Qual o sentido disso?
 
O que entra sempre influencia o que sai. Se consumimos coisas de qualidade, temos mais chances de produzir coisas de qualidade. É lendo bastante que se consegue escrever melhor, porque quanto mais se lê, mais é possível desenvolver um critério para o que é “bom” (tendo contato com o que a gente não gosta, com o que nos agrada e vendo as diferenças) e buscar reconhecer essas características em outras obras, inclusive no que a gente mesmo faz.
 
Não dizem que alguém só consegue oferecer o que tem pra dar? Quem tem boas referências devolve pro mundo trabalhos mais ricos e sensíveis. Quem tem raiva só devolve raiva. Quem não absorve nada, não tem nada pra dar de volta.
 
Quando a gente determina o que vai entrar pela nossa catraca, estamos escolhendo de qual matéria nós somos feitos. Eu quero ser feita de raiva e reclamação? Quero ser feita de colaboração? De coisas malucas? Quero ser feita de arte? Então vou buscar os ingredientes daquilo que eu quero ser. É preciso critério. Consciência. Ser ativa nessa busca.
 
Entre o input e o output existe um processo. Um tempo de maturação. O processo em que você pega aquilo que entrou pela sua catraca ou que você selecionou na feira do Bom Conteúdo, e então mastiga, espreme, recombina ou joga no Liquidificador da Arte e bate com outras coisas que você já recebeu, e deixa sair na forma de algo novo e diferente. Uma opinião, um trabalho, uma postura diante da vida.
 
Mas nem sempre isso acontece. Imagine uma panela recebendo calor, que aquece a água dentro dela e produz vapor. Tampada, o vapor fica contido e mantém o interior molhadinho (ui) por mais tempo. Sem a tampa, o vapor simplesmente sai e o interior seca mais rápido. É uma forma de imaginar o que acontece quando não deixamos o vapor das referências se formarem dentro de nós: já cuspimos tudo de volta sem elaborar, sem refletir, na pressa do cozimento. É preciso opinar logo antes que o calor do assunto passe!!1!
 
Acho que há muita aflição porque as pessoas simplesmente querem jogar pra fora sem ter absorvido. Recebe uma informação e devolve. Reflexo. Reação. E a gente segue autômatos, achando que a vida é uma grande partida de tênis em que a bola vem em nossa direção e a única postura possível é bater nela de volta. Sem saber por quê.
 
 
O que a gente joga no mundo também faz parte de uma escolha: deixar entrar apenas o que considero saudável e interessante e inspirador não irá me salvar, mas sim aquilo que escolho fazer com o que vem pra dentro de mim, inclusive as coisas feias e angustiantes e incômodas.
 
É uma questão de consciência sobre a qualidade do que absorvermos, mas também a consciência a respeito das escolhas daquilo que expelimos, do que jogamos de volta pro mundo. A nossa resposta também diz do que somos feitos. Quero ser apenas mais alguém replicando o mesmo discurso? Quero ser alguém que cria algo novo? Por que quero criar isso? E se eu fizer desse outro jeito? Quero ser alguém que arrisca experimentar? Quero destruir aquela iniciativa que deu trabalho porque destruir é divertido? Quero colocar mais um tijolinho no muro da hostilidade? O que isso faz de mim? Quem eu quero ser?
 
São perguntas que a gente faz como quem tenta prestar atenção no inspirar e respirar. Tirando do automático, podemos fazer escolhas novas.
 
E eu quero escolher o que recebo; e, pra quando eu não puder escolher, quero escolher a melhor forma de responder àquilo que vem de fora. Quero ESCOLHER.
 
Porque sempre dá pra responder ódio com arte.
 
 
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Agradeço pela arte que a Sirlanney devolve ao mundo no processo dela. Pipoco um coração atrás do outro nas ilustras que ela posta em seu instagram.
 
 
ilustração de Sirlanney
 
Fiquei literalmente uma tarde inteira rolando pelo instagram do Reilly, aí fui procurar uma imagem dele para ilustrar a newsletter e não consegui me decidir. Todas as suas montagens são doidas e incríveis – especialmente pelo quadro maior e todo interligado que suas figuras compõem.
 
As baleias da Estela Miazzi são apaixonantes. Arte com água, tanto pela aquarela quanto pelo tema dos desenhos. Também amei quando ela desenhou um polvo com a frase “você vai fazer o som do silêncio e eu vou me acal(mar)”.
 
Quando vejo gente propondo debate, criando, inventando coisa nova e rompendo barreiras, só consigo ficar inspirada. Por isso o Manifesto Irradiativo – e tudo que veio com ele, como o Encontro Irradiativo e o curso online para escrever personagens trans que divulguei há algumas edições – é uma coisa linda de se ver.
 
Os vídeos do site Tinha Que Ser Mulher, com as opiniões, caras e vozes de quem está nadando contra a corrente, num processo consciente de construir um mundo novo.
 
Os textos da Matryoska no Medium sobre gordofobia que busco sempre acompanhar, porque seu olhar sobre a questão do corpo fora do padrão e a sua forma de tratar o assunto não são apenas maravilhosos, mas necessários.
 
As indicações que o Austin Kleon compartilha em sua newsletter (em inglês), com links diversos para aqueles momentos em que quero só navegar em busca de coisas novas em vez de ler mais um textão (nada contra textão, inclusive cometo). Aí fui abrir a última edição que ele mandou pra pegar o link do subscribe e percebo que ele está falando do mesmo tema do texto que eu tinha acabado de escrever: input e output. Gente, é muita sincronicidade rolando. Tá sentindo? Tá sentindo?

 
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É 1816 e faz frio, apesar de ser verão. O que melhor a se fazer nesse clima tão esquisito do que se reunir com os amigos ao redor de uma lareira, não é mesmo? Na falta de um Netflix naquela época, é o que a jovem Mary Godwin e seu namorado Percy Shelley resolvem fazer quando vão se encontrar com o amigo Lord Byron e outros escritores da turma.
 
A noite é divertida, com muita bebida e histórias de fantasmas. Tão divertida que alguém se empolga além da conta, sobe na mesa e propõe: “gente, e se a gente fizesse um DESAFIO DE ESCRITA? Cada um de nós escreve um conto de terror e no próximo encontro lemos e decidimos quem é o ganhador!”
 
“Massa”, todos concordam, e começam a pensar em suas historietas de terror para o concurso.
 
Mary, na época com 18 anos, não consegue pensar em nada de cara e se angustia vendo os colegas já esboçando suas histórias. Sua inquietação com o deadline chegando ao fim acaba se refletindo em uma noite mal dormida, em que ela é atormentada por pesadelos. Um vulto enorme encarando-a, uma criatura horrenda criada por mãos humanas, a sensação de haver algo muito errado em criar vida desse jeito. Um monstro, mas quem? Criador ou criatura?
 
Ela se empolga e dá forma à história que leva para o encontro com seus amigos. Entre os outros contos apresentados aquela noite, Mary ouve a história “O Vampiro”, de John Polidori, que mais tarde seria considerada a origem do gênero de vampiro na literatura, que influenciaria desde Bram Stoker até Stephenie Meyer.
 
Mas não foi a única obra marcante que aquela noite fez surgir na história da literatura. Ali a jovem Mary, que mais tarde seria Shelley, estreou o conto que daria origem ao livro Frankenstein; or the Modern Prometheus, publicado em 1818 e lido até duzentos anos depois, criando raízes na literatura, na cultura pop e dando origem a outros ~clássicos~ que ela jamais seria capaz de prever, como “Nosso Amigo Frankenstein”. Nem a Sessão da Tarde seria o mesmo sem ela.

 
O resto você lê lá no blog, no texto Frankenstein: mais do que horror e monstros, em que analiso o livro de Mary Shelley, trago outras comparações com o Frankenstein da cultura pop e busco nesse clássico a essência que ainda dialoga com nossa realidade.
 
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Qual é o seu livro favorito? Meu livro favorito ainda não foi escrito. Ele existe como uma ideia, uma coisa vaga flutuando no ar e que eu tento perseguir. Pra conseguir ler meu livro favorito, não basta tirá-lo de uma prateleira, abrir a capa, passar as páginas; para ler esse livro, eu preciso empilhar as letras e palavras uma atrás da outra, como um quebra-cabeça de pecinhas bem pequenas, e escrever página por página. Meu livro favorito é aquele que eu busco toda vez que eu tento escrever, porque a gente acaba escrevendo aquilo que gostaria de ler – só pra descobrir, quando termina, que o livro favorito ainda espera, inalcançável, em algum lugar adiante.
 
Tá, essa resposta toda poética foi porque, putz, essa pergunta é difícil pra caramba. Como cês me pedem pra eleger favoritos, plmdds?? São tantos. Meu livro favorito é todo aquele que mostra algo sobre mim, sobre as pessoas, de uma forma que eu não tenha visto antes, que consiga me intrigar, me ensinar algo novo e me inspirar, tudo ao mesmo tempo.
 
Mas pra citar só alguns e não ficar parecendo que enrolei na resposta (hehe): Contato, do Carl Sagan; Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago; O Guia do Mochileiro das Galáxias, do Douglas Adams; A arte de pedir, da Amanda Palmer; Por Escrito, da Elvira Vigna (aliás, preciso MUITO escrever sobre esse livro).
 
Estou preparando uma edição especial elencando os melhores livros que li em 2015, não perca ;)
 
Por que você acha que a gente está nesse mundo? O momento em que surgimos nesse mundo foi um acaso tão aleatório quanto o momento em que deixaremos de existir, seja como indivíduos ou como espécie.
 
Então acho que a gente está aqui meio que para esperar pela extinção.
 
Mas o que a gente faz nesse meio tempo é o que determina se iremos nos render à inevitável destruição ou se vamos criar coisas melhores para a gente passar esse tempo esperando pelo fim da forma mais agradável e generosa possível.


 
A seção Pergunte à Escritora foi criada depois de eu receber uma enxurrada de perguntas na edição #89, e ter guardado um bocado delas para responder aos poucos. Se você quiser me perguntar QUALQUER COISA, basta responder a este e-mail com a pergunta e um dia eu respondo ;)
 
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A Allana, que tem um canal no Youtube em que ela e as amigas falam de livros, quadrinhos, filmes e jogos, o Ideia Transitiva, fez um vídeo-resenha para falar de Pequenas Tiranias e fiquei mó felizona!
 
 
O livro Pequenas Tiranias você encontra aqui (nessa página também dá pra baixar de graça meu Hipersonia Crônica, aproveita!).
 
Se você leu meus e-books, vai ser MUITO importante pra mim se você deixar uma avaliação na Amazon ou na Kobo, ou fizer uma resenha no seu blog, ou no seu vlog, ou recomendar para os seus amigos, ou falar sobre os livros nas redes sociais, enfim, contar para o mundo porque isso merece ser lido.
 
Mesmo se não gostou, fala também.
 
É muito difícil fazer tudo sozinha, sem verba nenhuma para investir em divulgação; então FAZ TODA A DIFERENÇA contar com a sua ajuda, com resenhas e comentários e indicações de leitoras e leitores se derramando nessa nossa gloriosa internet.
 
Aliás, peço isso não só em relação a mim, mas aos artistas em geral: se alguém faz um trampo massa, produz algo que você curte consumir, seja grande, seja pequeno, seja literatura, seja games independentes, seja na internet ou fora dela: COMPARTILHE. Fale sobre. Ajude a divulgar.
 
Quando é pra repercurtir o que não gosta, o que causa indignação, o que é negativo, o que rende umas boas reclamações, muita gente não pensa duas vezes. Mas e as coisas boas que estão sendo feitas? E as coisas que inspiram, que constroem, que agregam? Por que é tão mais difícil dar visibilidade a coisas positivas?
 
Acho que vale a gente pensar no que estamos ajudando a dar visibilidade. E se for usar nosso poder de repercutir assuntos, que seja para valorizar o trabalho de quem está fazendo algo que a gente gosta, né?

 
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Você pode me ajudar numa coisa, &lt;&lt;Seu nome>>?
 
Não precisa nem levantar! Só responder esse pequeno questionário sobre financiamento coletivo. São poucas perguntas, nem precisa se identificar e você vai me ajudar muito a entender algumas coisinhas.
 
Agradeço muito! ♥︎ 

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Se curte receber meus e-mails, não se esqueça de indicar prazamiga, mandando este link. Obrigada!
Temos algumas evidências que podem ou não apontar para o fato de que as últimas newsletters estão sendo escritas pela clone emo.
 
No último sábado, dia em que as caixas de entrada dos leitores de Bobagens receberam uma edição falando sobre isolamento e sobre querer ficar sozinha, a SUPOSTA autora foi flagrada em um EVENTO, interagindo com PESSOAS. Não faz o menor sentido!
 
Como pode uma pessoa escrever textos aparentando estar tão para baixo e então, NO MESMO DIA, tirar fotos como esta?


 
Sorrindo e usando o cabelo de Eurritimia como peruca. Vai dizer que a autora da última edição e a senhoura desta foto são a mesma pessoa??
 
E digo mais!!! Esse negócio de receber a newsletter pontualmente aos sábados de manhã não bate com o fato de que no horário em que o e-mail é disparado (bang bang) a SUPOSTA autora está DORMINDO. Suspeito não?
 
Vai ver é porque toda autora só precisa de férias de vez em quando – mas não tem como contratar alguém para ficar no lugar.
 
Beijos receptivos, 
 
Augusta.
Ops, Aline. 
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