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Porque as coisas não precisam acontecer depressa.


Sou fascinada por coisas que não entendo muito bem. Sou a típica pessoa de “humanas”, como gostam de categorizar, mas sempre tive muito interesse por ciências: acho incríveis algumas coisas de química e física, mesmo que entenda superficialmente; absorver informações de séries como Cosmos ou de vídeos como os do canal Vsauce às vezes me deixam tonta e até confusa, mas sempre maravilhada; fico emocionada com o desenvolvimento das coisas vivas, como elas funcionam, e como elas contam a história do nosso planeta.
 
E fico impressionada porque, mesmo olhando pra ciência, o que estou buscando são HISTÓRIAS.
 
As baleias, <<Seu nome>>. As baleias são um exemplo dessas coisas vivas que me fascinam. São criaturas poderosas, muito inteligentes, altamente sociais, sensíveis, mamíferos que precisam de ar e mesmo assim são mestres no mergulho, além de dotadas de uma linguagem sofisticada que estamos longe de entender.
 
Falo “baleias” de uma forma geral porque soa mais simpático, mas se quisesse ser mais exata e cientificamente correta, teria que dizer “cetáceos”. As orcas que ilustram o início da newsletter, por exemplo. É sabido que não são baleias, mas sim do time dos golfinhos – embora todas essas lindezas, orcas, golfinhos, cachalotes, jubartes, narvais, azuis & outras sejam parte dessa grande turma dos cetáceos.
 
Sendo assim, você sabe quanto TEMPO levou para as baleias surgirem, assim, da forma que conhecemos hoje?
 
Imagine que aparecemos, eu e você, numa paisagem de 52 milhões de anos atrás. Está vendo, na beira do rio, aquele bicho que de longe lembra um pequeno cachorro, apesar do focinho comprido e da cauda longa? Estamos olhando, na verdade, para o ancestral da baleia.

Ele tem quatro patas e vive na terra, mas já busca seu alimento na água. Ele não é um nadador que se diga oh, nossa, que Michael Phelps ele é quando nada, mas ele faz o melhor que pode com o corpo que tem, que não é o mais adequado para essa atividade, convenhamos.
 
Mas ele se esforça, porque ou ele entra na água ou morre de fome. O problema é que a água também está cheia de predadores, o que o força a mudar e melhorar se não quiser ficar para trás.
 
Usaremos a fantástica tecnologia da imaginação para avançar alguns milhões de anos e ver que todo esse esforço pela sobrevivência acabou transformando, aos poucos, aquele quadrúpede terrestre numa outra espécie, que já passa mais tempo na água, que começa a explorar o mar, que tem até membranas entre os dedos para ajudar na natação. Se continuarmos avançando nessa velocidade, veremos um animal que já não se lembra da terra firme, que desenvolveu uma cauda poderosa com um remo na ponta, que trocou as quatro patas por um par de barbatanas. Até se transformar, há mais ou menos trinta milhões de anos, em algo mais próximo do que viriam a ser as baleias que hoje aprendemos a amar.
 
Não sou nenhuma especialista em evolução, o que tornaria qualquer tentativa de explicar esse processo num verdadeiro desastre, e até os verbos que encontro para falar disso – virar, transformar, tornar, surgir – fazem parecer que foi algo mágico e repentino, como Serena se transformando em Sailor Moon, e não um processo de seleção natural que demorou uns bons milhões de anos pra acontecer.
 
Se você reclama que sua semana foi longa, se você acha que 2015 não acaba nunca, se você acha que faz muito tempo que sua mãe tinha a sua idade, pensa nisso: um MILHÃO de anos. O tempo que isso demora pra passar. Agora multiplica esse milhão umas doze vezes para você ter uma ideia do tempo que demorou para um animal de quatro patas se transformar numa baleia.
 
Não foi como se ele tivesse olhado pra água, pensado “hm, pode ser jogo pra mim se eu aprender a nadar, hein” e no dia seguinte aparecido com barbatanas para entrar na água. Coisas vivas demoram para mudar.
 
Isso me faz pensar que nós, seres humanos, quando olhamos para o mundo, somos capazes de ver apenas uma fatia dele; que tudo o que vemos como estático e pronto, na verdade está se mexendo e se transformando, mas numa velocidade que não somos capazes de captar, porque nossas vidas são tão curtas e estamos há tão pouco tempo nesse planeta que a nossa escala do observável, em relação ao tempo, é tão estreita quanto o buraco de uma fechadura. Pense nas espécies que existem hoje: e se elas forem apenas um estágio de transição para algo que, daqui a alguns milhões de anos, será uma espécie completamente diferente? 
 
Os continentes são outro bom exemplo: os nossos mapas-mundi são apenas um frame, um retrato pausado de uma animação onde esses pedaços de terra estão sempre se movendo, mudando de lugar e de tamanho, através das eras. E todas as nossas histórias, nossas vidas, tudo aquilo que conhecemos, se passam nesse único momento que, da perspectiva da Terra, dura apenas um segundo.
 
É como se fôssemos assistir a um filme, mas durante todo o tempo que ficássemos na sala de cinema, tudo o que o projetor transmitisse fosse um único frame. O que teríamos achado de Jurassic Park se acreditássemos que o filme fosse apenas essa imagem?


Então o processo de evolução das baleias, aos nossos olhos, parece longo, impossivelmente demorado, mas a verdade é que, em comparação com as outras espécies, elas evoluíram mais rápido do que o tempo que levou para toda a sua família entrar no Whatsapp e te adicionar em grupos que você põe no mute que eu sei. Nossa noção de velocidade é acelerada demais para considerarmos 12 milhões de anos um período curto de tempo.
 
Criamos para nós um mundo que se move rápido demais, em que as coisas surgem e desaparecem numa velocidade impressionante, e a internet é o que melhor representa isso. Passamos um dia inteiro sugando um assunto até a exaustão para no dia seguinte esquecermos por que aquilo um dia já foi importante para falarmos sobre. A semana passada parece estar tão longe de nós quanto a época em que só tínhamos o jogo da cobrinha para nos distrair em nossos celulares.
 
Queremos mudar as coisas e queremos mudar agora, já. Vivemos num estado de ansiedade que nos deixa doentes quando percebemos que as coisas não andam do jeito que queríamos, que não avançamos tão rápido quanto gostaríamos. A ansiedade virou uma epidemia ou, talvez, algo tão normal quanto ter cabelo ou tatuagem.
 
Nesse contexto, foi abusar demais de sua paciência ter discorrido por extensos parágrafos sobre a evolução da baleia para só então você perceber que bem, esse não é um texto sobre baleias.
 
Pode ser decepcionante ler um texto que começa de um jeito e termina de outro porque queremos sempre ir direto ao ponto, precisamos de títulos que já resumam bem o texto, ficamos com preguiça de textos longos demais porque na metade dele já estaremos ansiosas olhando as outras abas do navegador para ver o que estamos perdendo na internet, ver o quanto os continentes de assuntos mudaram de lugar enquanto líamos aqueles três parágrafos.
 
Já podemos estar há muito tempo imersas na internet para acreditar que ela é nosso mundo, que a velocidade das coisas deve ser essa, mas o tempo da internet não é o NOSSO tempo. Ainda somos animais que mudam lentamente, que precisam de tempo para absorver informação, que às vezes precisam de anos para mudar de corpo e de mentalidade.
 
Aí vem a frustração e a profunda raiva quando entramos num debate, gastamos enormes quantidade de energia, saliva e memes sarcásticos, e a outra pessoa sai da discussão acreditando nas mesmas coisas que acreditava antes de entrar no debate com você. Porque o que queremos dizer ao debater, além de provar que nossa ideia é melhor que a do outro, é “quero que você mude de ideia e mude de ideia AGORA.” 
 
A gente não permite nem que a outra pessoa tenha algum tempo pra pensar, sabe. Quantas vezes já me acuaram num “debate” exigindo que eu desdizesse algo que acabei de dizer ou insistindo para que eu mudasse de opinião sobre algo que acabei de escrever, algo sobre o qual ainda estou refletindo? Pelo rastro de textos que vou deixando no caminho, fósseis de tempos em que eu pensava e via o mundo de forma diferente, percebo o quanto algumas ideias foram evoluindo com o tempo, amadurecendo ou até deixando de existir. E isso não aconteceu num debate, em alguém me confrontando até que eu saísse da conversa completamente “convertida”, mas em sementinhas plantadas aqui, regadas ali, e que com o tempo foram desabrochando na forma de uma ideia diferente.
 
Ideias, assim como coisas vivas, mudam devagar. Podem não levar milhões de anos para evoluir, mas às vezes vão precisar de tempo e de um processo complicado para se transformarem.
 
A nossa pressa, nossa ansiedade, nossa impaciência com os processos de mudança não dão espaço pra isso acontecer. Queremos que o quadrúpede entre na água já em forma de baleia, ignorando todo o processo que ele precisa passar, todas as formas intermediárias, muitas vezes esquisitas e desengonçadas, que precisam acontecer pelo caminho para que haja evolução.
 
A percepção de que as pessoas não podem mudar de ideia (inclusive ver isso como fraqueza ou desvio de caráter, WTF) ou de que DEVEM mudar de ideia num estralar de dedos, ambas parecem perder de vista algo muito importante: o nosso próprio ritmo. Ainda nos lembramos de como é isso? Ou já ficou soterrado pelo ritmo de trabalho, das nossas cidades, da internet, de ambientes que exigem que a gente vá cada vez mais rápido, produza, pense e opine cada vez mais depressa?
 
Li que nosso cérebro, quando recebe alguma quantidade de informação nova, leva tempo pra processar, pra reordernar e ressifignicar aquilo de uma forma que faça sentido, de uma forma que possa ser absorvida. Quando uma informação familiar é processada, não demora tanto, mas informação NOVA exige um processo mais longo. Talvez por isso o tempo passe muito mais rápido na internet: quanto mais familiar o mundo à nossa volta se torna, mais o cérebro tem contato com informações que ele já processou antes e mais rápido o tempo parece passar.
 
E convenhamos, a internet pode ser um lugar cheio de possibilidades e novidades, mas será que a gente está usando esse ambiente para aprender coisas novas, entrar em contato com o diferente, ou apenas para ficar repetindo os mesmos assuntos, piadas e transitando pelos mesmos lugares e temas, numa zona de conforto disfarçada de “overdose de informação”?
 
Se as coisas estão indo rápido demais, talvez seja porque não estejamos aprendendo nada de novo.
 
Por exemplo, olhando a infância daqui da vida adulta, sabemos que é um período curto de tempo, alguns anos que passaram voando. Mas tente se lembrar do tempo que você esteve na infância: a quantidade de coisas que aconteceu nessa época parece ter levado um tempo muito maior do que realmente levou. Porque nessa época tudo é novidade. Estamos aprendendo. Entrando em contato com coisas novas. Então o tempo, ou pelo menos nossa IMPRESSÃO dele, se estende.
 
O imediatismo, essa exigência por respostas prontas e opiniões lapidadas, nos tira essa chance de nos desenvolvermos, de nos transformarmos gradualmente em alguém melhor, uma pessoa mais madura. Um tuíte, um texto ou um discurso representam uma pessoa da mesma forma que o atual mapa-mundi representa o nosso planeta: é apenas um frame, um recorte no tempo de algo que está constantemente mudando e se transformando.
 
Então, quando escrevo, ao compartilhar com você o que estou pensando ou aprendendo, acabo criando registros fósseis das minhas ideias, uma forma de capturá-las e observar, com o decorrer do tempo, o que muda, o que é extinto e o que evolui (espero que na direção de se tornarem algo tão sofisticado quanto uma baleia! ♥︎ ) Se eu me prendesse a um único texto, não veria isso acontecer. Por isso a persistência. Por isso a necessidade de bem mais do que uma única edição dessa newsletter para desenvolver uma ideia. Talvez eu precise de umas oitenta edições. Talvez eu precise de umas 100. Quem vai saber? Só ficando pra saber onde isso vai dar.
 
Porque mudar de ideia, evoluir e aprender são processos. E o processo, ele é lento.

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Antes de ir embora, queria indicar duas coisinhas:
 
1. A newsletter Mulheres Que Escrevem, criada pela Taís e pela Natasha, que trazem textos de várias autoras refletindo sobre o processo de escrita, as dificuldades e as descobertas que vamos encontrando pelo caminho, da perspectiva de mulheres que escrevem.
 
2. Não é uma newsletter, mas vale indicar EscrevaTrans porque é um minicurso gratuito por e-mail sobre escrever personagens trans, ministrado por Alliah, que terá a duração de 4 dias, de 9/11 a 12/11, com lições e propostas de exercícios.
 
Agora, uma proposta: tem algo que você gostaria de me perguntar? Vamos fazer o seguinte: responda esse e-mail, me mande um tuíte ou crie um tópico no nosso grupo secreto, o que você preferir, me perguntando algo. Pode perguntar QUALQUER COISA. Respondo na próxima edição, combinado?
 
Até a próxima semana :)
 
Beijos demorados,
 
Aline. 
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