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Para começar o ano.


Algumas distâncias, penso ao olhar para o mapa, não podem ser medidas em tempo nem em espaço, embora sejam essas dimensões o tecido onde nossa realidade é costurada; não, algumas distâncias são percorridas em PESSOAS.
 
Esse mapa é um exemplo disso: desdobrado e estendido sobre a mesa da lanchonete onde parei na Beira de Estrada, suas linhas não indicam rotas e seus pontos não indicam lugares. Não é um mapa qualquer, portanto. É uma forma diferente de olhar para o caminho.
 
A moça que vem anotar meu pedido olha com estranheza para o mapa, mas não diz nada. Um café, um salgado, uma água. Com gás, por favor. Deve estar pensando “quem ainda usa mapa de papel hoje em dia, meu deus?”, e é uma pergunta que também me faço, se nas nossas telas luminosas de bolso há mapas e todo o tipo de resposta que procuramos. Já tentou parar no meio da rua, sacar um mapa de papel do bolso e desdobrá-lo feito jornal pra tentar se localizar? As pessoas que passam podem achar meio ridículo. Ultrapassado até.
 
Mas aquele não é um mapa para olhar no meio da rua, enquanto anda. Penso em explicar isso pra moça da lanchonete quando ela volta com a comida, mas acabo dizendo apenas “obrigada”. Se eu tivesse que explicar a ela porque estava consultando um mapa de viagem como aquele, diria que não é um mapa comum. É um Mapa de Navegação Pessoa-Orientado.
 
Ele mostra o meu ponto de partida e o meu ponto de chegada, um lugar não necessariamente físico que defini como minha meta. Meu objetivo. Onde estou mirando. Pra onde estou indo – o que, nesse caso, significa “quem quero ser”.
 
Entre esses dois pontos, uma série de “checkpoints”, pontos de paradas marcados em cores marcantes, espalhados pelo caminho que vou percorrer.
 
Consegue ver?, eu apontaria para a garçonete, se ela estivesse aqui ouvindo a explicação. E então eu diria, como quem faz uma grande revelação: mas os pontos não são pontos, são pessoas.
 
Porque fazer esse caminho – ou um caminho, seja ele qual for – significa passar pelas pessoas que aparecem ao decorrer da jornada. Estabelecer uma conexão, receber ou dar, influenciar e ser influenciada, sentir. Pessoas fazem parte do caminho. Pessoas que simplesmente estão lá, como as pedras ou as placas ou as árvores nas margens de uma pista; ou as que ajudam a avançar, como asfalto que pavimenta a estrada.
 
Então o mapa, assim em papel, e não digitalizado ou em forma de aplicativo virtual, serve para que eu mesma possa traçar o contorno que vai ter o meu caminho de pessoas. É uma coisa que cada um precisa fazer o seu, sabe? Algo bem pessoal mesmo. E pensar sobre quem queremos ter à nossa volta não é algo que cabe dentro de uma telinha luminosa.
 
Veja, e eu viraria o mapa em direção a ela, a essa altura com as mãos dentro do avental e sem mais nenhuma pressa em ir recolher os pedidos das outras mesas, porque estaria realmente interessada em saber onde isso iria levar. Passo os dedos pelo papel, imaginando mostrar à garçonete do diálogo hipotético que a linha azul é o meu traçado, que, como num jogo de liga-pontos, só faz passar por pontos que já estão lá – e passar pelos pontos certos também é importante aqui.
 
É possível escolher o caminho. E é para isso que serve o mapa, afinal: para antecipar essa escolha.
 
Tenho uma jornada nova pela frente, e por isso resolvi traça-la pensando nas pessoas que quero encontrar pelo caminho. Não porque sejam boas ou más, apenas porque – isso é inevitável – cada um que passa pela nossa vida tem um papel na nossa história. 
 
“Passar” não significa que elas todas serão passageiras, que vão fazer parte apenas de um trecho do meu caminho, para eu pegar o que me convém e deixá-las, sem olhar pra trás. Não, não é passar desse jeito. Porque podem sim haver pessoas passageiras, mas algumas – ou muitas delas – vão ficar, seguir comigo, compartilhar um caminho em comum. Esse “passar”, portanto, carrega também o significado de “estar”. De pessoas que, independentemente do tempo de duração dessa passagem, ocupam um espaço na minha vida. Assumem um papel. Ou vários.
 
Então, como mostra meu mapa, quero passar por alguém que, como Hagrid com Harry Potter no Beco Diagonal, ou como a minhoquinha no muro sem fim do filme clássico dos anos 80 “Labyrinth”, mostrem que um caminho aparentemente sem saída pode ter uma passagem que se revela com uma leve mudança na minha perspectiva.
 
Quero passar por alguém que faz perguntas para as quais não servem as mesmas respostas de sempre. Quero passar por alguém com quem eu possa discutir ideias, em vez de comentar as coisas que já existem. Quero no meu caminho alguém para conversar sobre o cotidiano com o mesmo fascínio de quem descobre um mundo fantástico.
 
Preciso que meu caminho passe por alguém que nem imagine a importância enorme de seu papel na minha vida. Preciso passar por uma pessoa que não vá se lembrar nem de meu nome, mas vai levar para a vida algo que eu disse pra ela. Preciso passar por alguém que não vá lembrar exatamente como a gente se conheceu, porque faz tanto tempo e é como se a gente se conhecesse sempre. Preciso passar por alguém para quem serei uma memória vívida, embora incompreensível, daqui a trinta anos. Preciso passar por alguém que nem notou que eu passei no caminho dela.


 
Quero passar por uma pessoa que faça as coisas de um jeito que eu nunca teria pensado em fazer. Quero passar por outra que se interesse pelo jeito que eu faço as coisas. E ainda por outra com quem eu possa descobrir, junto com ela, como fazer algo que nenhuma de nós jamais fez.
 
Preciso passar por alguém que pede e por alguém para quem eu possa pedir. Preciso passar por alguém que não saiba muito bem para onde ir e me peça informação no meio do caminho, embora eu também não saiba. Preciso passar por quem me lembre que também estou perdida. Preciso passar por quem aponte uma direção pouco usada.
 
Preciso passar por uma pessoa séria e por outra que não vai ter medo de fazer piadas ridículas. Preciso passar por uma cética e por outra que acredite. Por uma que avança rápido e por outra que não se move, apenas observa.
 
Quero passar por alguém que fale coisas que eu não entenda, para eu ter que pesquisar. Quero passar por alguém com quem eu não concorde, para eu tentar entender porque penso o contrário dela. Quero passar por alguém que não ache que estou tentando ser melhor que ela porque faço diferente, penso diferente, gosto de coisas diferentes.
 
Quero passar por quem vê valor no que faz. Por quem abraça quem é. Por quem se entende como uma pessoa contraditória e imperfeita, mas vê que tudo bem. Quero passar por alguém que se recusou a ser super-herói. Que não vê graça na grandeza. Que prefere celebrar as pequenas vitórias. Quero passar por quem mudou de ideia, por quem já largou tudo, por quem já topou começar algo de novo, do zero.
 
Quero que meu caminho passe por pessoas com quem eu possa aprender. Quero passar por pessoas a quem eu terei o que ensinar. 
 
A garçonete me olharia intrigada e, neste ponto, eu perceberia que há pessoas atrás dela escutando com atenção; até os clientes das mesas vizinhas estariam olhando pra mim e esticando a cabeça para o meu mapa de pessoas, demonstrando interesse ou curiosidade.
 
Então tiro da minha mochila o meu radar, um aparelho antiquado que uso para detectar essas pessoas, saber se elas estão por perto e qual é o papel delas nessa história. O moço da mesa ao lado perguntaria se é à pilha ou se precisa recarregar na tomada, claramente confuso com esse tipo de tecnologia. Na verdade, o radar fica em cima da mesa, mas ninguém olha ou pergunta por ele. Tomo mais um gole do café, que esfriou demais.


 
O radar pisca, indicando que nos arredores há uma das pessoas que procuro. Alguém no meu caminho que vai gostar de ouvir uma de minhas histórias. Já sei até quem é.
 
Termino de comer, bebo toda a água e então chamo a garçonete, a de verdade, a que ficou o tempo inteiro trabalhando no balcão em vez de ficar conversando sobre mapas com uma das clientes, e peço a conta. Aliás, peço também mais um salgado pra viagem.
 
Saio e agradeço a moça, que não imagina que o meu “obrigada” é também por ela ter sido, aquele dia, a pessoa que marcaria o meu caminho por ser uma ilustre desconhecida com quem eu travaria um diálogo imaginário, para, quem sabe, tomar coragem para mais conversas reais.
 
O mapa já vai dobrado e guardado na mochila, mas ainda penso sobre ele. Não sobre o meu, mas sobre o mapa das outras pessoas. Penso em quantos mapas vou aparecer, em quantos caminhos passarão por mim e que papel eu vou ter na jornada de cada uma dessas pessoas.
 
Serei paisagem? Uma parada transitória? Ou alguém que fica? Serei relevante nesse caminho? Estarei ajudando a avançar ou atrapalhando a passagem? Pensar sobre as pessoas que quero ter no meu radar também acaba me fazendo tomar consciência que, em algum lugar, estou no radar de alguém. Que também é uma escolha o tipo de papel que eu vou ter na caminhada da outra pessoa.
 
Posso ser a protagonista de minha própria caminhada, mas com muito mais frequência vou aparecer como parte do caminho de alguém.
 
E a pergunta que precisa me acompanhar nessa longa jornada que terei pela frente, junto com o mapa, o radar e o salgado guardado na mochila é: quem eu quero ser na história desse alguém?


 
•••
 
Duas perguntas para nos fazermos diariamente:
 
O que vamos fazer hoje diferente do que fazíamos ontem?
 
O que fizemos de bom ontem que podemos repetir hoje?
 
•••
 
Uma coisa diferente que resolvi fazer este ano é produzir conteúdo para o Youtube. Já me disseram que eu tinha que fazer vídeos, mas confesso que a ideia não me agradava quando eu pensava nesse formato de vlog, que é o que faz mais sucesso no Brasil, como o único parâmetro de “fazer vídeos”. 
 
Comecei a pensar nisso e a estudar o assunto. Então percebi que eu podia fazer vídeos de várias formas e nenhuma delas precisaria ser vlog. O audiovisual poderia ser mais uma plataforma para eu apresentar o que eu faço – que é escrever – experimentando novas linguagens e conteúdos.
 
E essas experiências começaram com o “Leitura da Autora”, uma série de vídeos em que resgato alguns de meus textos e faço a minha leitura deles, sem ensaio e sem cortes (e inclusive alguns erros, porque cê sabe que os erros, eu os abraço).
 
Quis fazer algo bem simples, focado no texto, quase como se eu estivesse sentada com você, lendo.
 
Já tem dois vídeos, olha só: o “Nunca Leia os Comentários” (conselho que sempre vale a pena lembrar) e “A Realidade Não Tem Graça”. Clica na imagem e dá o play:
 
 
Espero que goste e fique à vontade para me dizer o que achou! Qual dos meus textos você gostaria de ver no “Leitura da Autora? Pode mandar sua sugestão ;)
 
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OMG, finalmente chegamos ao fim da famosa contagem regressiva que vem nos acompanhando há algumas edições. O que virá a seguir? Não se preocupe que não é nada que vai explodir na sua cara (quer dizer, espero que não).
 
A essa altura você já deve ter sacado que o que vem a seguir é a CENTÉSIMA edição desta newsletter, que entrará em seu terceiro ano de existência. Mas o que nos aguarda no caminho à nossa frente? 
 
Só esperando a próxima edição para saber. Então não deixe de aparecer semana que vem! Sua presença vai ser muito importante :)
 
E, com os dois pés já bem firmes em 2016, meu desejo é que você tome posse dele e possa colecionar momentos maravilhosos – e, principalmente, que você tenha um mapa recheado de pessoas incríveis ao seu redor para fazer esses momentos acontecerem.
 
Beijos de ano novo,
 
Aline. 
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