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Olá <<First Name>>

100 mil palavras. Talvez para vocês isso não tenha significado. Talvez seja só um número aleatório, talvez isso simplesmente não seja relevante, mas eu preciso dizer que a continuação do “Teatro da Ira” chegou às 100 mil palavras e eu estou radiante com isso, não apenas pelo tamanho absurdo, mas pelo que significa passar da marca; estar mais perto do fim do que do começo. Ver que todo o trabalho finalmente parece prestes a acabar.
Precisei escrever quatro livros para entender que não gosto de histórias longas. Tenho dificuldade com os contos, mas o sofrimento ao menos é temporário. Histórias longas levam muito tempo entre o outline e o manuscrito, e eu sou promíscuo demais para esse tipo de relacionamento.
Tenho farejado outras histórias, outros mundos, outras aventuras, mas preciso me manter no caminho, pois foi me desviando um pouco a cada dia que eu demorei tanto para terminar esse livro, mas não agora. Agora eu tenho 100 mil palavras e estou feliz.
Quando começar a edição, eu deixo a felicidade acabar.

#Dar o Sangue

Na mesa do refeitório o silêncio só era rompido pelo som do garfo raspando o fundo das vasilhas de plástico. Estavam todos de cabeça baixa, olhar perdido, saciando com calma a fome de tempo, antes da sirene tocar.
– O que trouxe hoje? – Fernando pergunto, entre uma mastigada e outra, curvado na cadeira sem encosto.
– Dois dedos do pé direito e o antebraço esquerdo. – Carlos respondeu, com dificuldade para manter a marmita no lugar enquanto garfava uma batata descorada.
– Ainda tem dedo do pé? Eu dei os meus na primeira semana. Não achei que sentiria falta.
– O equilíbrio, não é?
– Pois é, mas a gente se acostuma. Tem gente que se acostuma sem rim.
– O Alexandre virou diretor regional. Escritório no vigésimo sétimo com vista para o parque e aparelho de hemodiálise.
– Sortudo.
– Você chega lá.
Enfiaram uma garfada na boca e mastigaram, com um sorriso amarelo e invejoso no rosto. Carlos se ajeitou na cadeira sem encosto e quase caiu quando tentou se apoiar na mesa com o braço que já não estava lá. Fernando fingiu não notar, culpando o ponto cego do olho que havia trazido para a empresa.
– Você viu a funcionária nova? – Carlos sorriu, sem tirar o olho da comida.
– Amanda, né? Do marketing? Ela deu pra quem?
Carlos parou de sorrir. Olhou para o bife inteiro na marmita e ficou pensando em como faria para cortá-lo sem o braço. Precisava se lembrar de trazê-lo em pedaços nos dias seguintes.
– Porquê você diz isso?
– Ora, porquê... Nenhuma cicatriz, nenhum dedo faltando. Tudo bem que ela entregou as unhas e os cabelos, mas fica bem careca. Nova daquele jeito? Ninguém é promovido sem entregar alguma coisa. Tá sendo protegida! Certeza!
– Que comentário escroto, cara.
– Aposto que você pensou o mesmo.
Talvez tivesse pensado, mas não diria em voz alta. Tinha seus princípios bem guardados, assim como as pastas de pornografia no celular.
–  Ela é meio tímida, não fala muito. Na verdade, entregou o útero...
Fernando disfarçou o choque, piscando o único olho. Era algo que a maioria das mulheres deixava para quando ficavam mais velhas.
– Essa vai longe. – Fernando passou a língua para se livrar de uma pele de feijão presa entre as próteses de porcelana. Seus dentes já tinham sido levados a muito tempo.
– Resolvi que vou trazer um testículo mês que vem.
– O direito ou o esquerdo?
– Direito.
– Eu entreguei o esquerdo no mês passado.
Balançaram a cabeça, como iguais. Metade da comida ainda no prato quando a sirene tocou e todos começaram a se levantar, numa profusão de muletas, cadeiras de roda, suportes para soro, bolsas de colostomia e pequenas manchas de sangue e orgulho. Fernando cogitava entregar outro testículo para continuar a frente de Carlos. Um movimento arriscado, já que Carlos ainda tinha os dois rins.

#Sublinhado


Não creio em distopia. O que existe em oposição à utopia é o que chamamos de realidade, não uma categoria literária.”

–– Ricardo Labuto Gondim, Pantokrátor

#Dark

Dark, a série alemã sobre viagem no tempo, está de volta este mês para a sua terceira (e última?) temporada. A história gira em torno de uma cidade afastada, cuja economia depende quase que exclusivamente de uma usina nuclear e três famílias tradicionais, cujas origens são parte do grande mistério. A série começa com a investigação do desaparecimento de um garoto, uma história muito similar ao que já aconteceu 33 anos atrás. Para quem gosta de teorias a série é um prato cheio, mas prepare-se para desenhar mapas e arvores genealógicas para entender o que está acontecendo e já vá pesquisando sobre o paradoxo de Bootstrap para entender a complexidade deste nó. Dark é uma história cheia de reviravoltas, bastante labiríntica, o que talvez exija um pouco mais de atenção do que outras histórias, então deixe o celular de lado e aproveite.

#Casa Fantástica

Anote na agenda as datas para a edição da Casa Fantástica 2020. A Casa que já se tornou um sucesso do Festival Literário de Paraty, apostou em uma edição online para romper a quarentena entre os dias 26, 27, e 28 de junho. A cada dia, duas mesas diferentes com autores, editores, quadrinhistas e estudiosos, tratando sobre diversos aspectos da literatura fantástica. Ao contrário dos outros anos, a edição 2020 foca no papel da arte como bastião da resistência no momento obscurantista em que vivemos. Vocês podem acompanhar o cronograma completo através do perfil da página no instagram.

#Ossos do Oficio

Nessa quinzena meu foco acabou se dispersando um pouco entre os diversos compromissos, mas mesmo assim consegui chegar as 100 mil palavras da continuação do Teatro da Ira e já dá pra ver o final lá no horizonte.
Em Depois da Quarentena, eu escrevi o fictício reencontro de um casal, depois que uma solução para a pandemia foi encontrada. Além disso, escrevi um artigo sobre a origem deste boletim e meu encantamento por cartas. Você pode lê-lo em “Cartas ao desconhecido.”
Enquanto você está lendo esta newsletter, é muito provável que meu conto “Contém Glúten” esteja sendo publicado pela revista mafagafo. Se você perdeu, não fique triste. Assine a revista e receba toda semana dois contos inéditos de um monte de autor bacana. Sério, eu não acredito que seja de graça. Quem perder é muito tonto.
Também aproveitei a semana para dar uma organizada no catarse, que vinha causando confusão nas pessoas sobre quais as recompensas para cada tipo de apoio. Ficou bacana, acho que vocês vão gostar. Com essa organizada, começamos a meta para tornar o sonho do Zine Próprio realidade, então ajude-nos a divulgar.
Para terminar, até o dia 31 de Junho, todos os assinantes de todas as categorias do catarse irão receber o cartão especial de São João. Aquela ajuda divina para a gente passar por este momento tão difícil. Se você não assinou, corre que dá tempo. Ufa! Agora vou apertar minhas cachorras e tomar uma água.

#Agradecimentos

Meus agradecimentos ao Victor Burgos, Camila Fernandes, Ana Lúcia Merege, Brena Gentil , Mariana Sgambato e Vilma Kano, que deram seu apoio no catarse para fazer com que esse boletim saísse da caixa de ideias.

Se você leu até aqui

Os postais para os apoiadores do tipo “Te pago um lanche” foram enviados. Se você perdeu essa chance, ainda dá tempo de assinar o catarse e garantir o postal do próximo mês.
Se alguma dessas bobagens te interessou, talvez você queira dar uma olhada no conteúdo do meu site, onde publico artigos, contos e crônicas gratuitas periodicamente. Nele você pode também comprar alguns dos meus livros e me ajudar a pagar pela ração dos dois demônios que moram comigo. Para aqueles que estejam se sentindo particularmente generosos (ou culpados de ficar baixando livro pirata, seus danadinhos), estou com campanha aberta no Catarse para financiar uma parte destas loucuras e conseguir viabilizar alguns projetos. A partir de R$5,00 você já me paga um café e garante que eu não durma antes de entregar o próximo capítulo. A meta do catarse estacionou em 20%. O dinheiro é importante para alguns projetos; é com ele que eu financio os contos postais, a manutenção do site com conteúdo exclusivo e o envio do boletim Gazeta Ordinária. Estamos longe da primeira meta e a milhas de distância da meta final, mas estou certo que chegaremos lá.
Você não precisa ajudar, mas se quiser, garante uns mimos. :)

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Diego Guerra | Fantasia e Ficção Científica · Rua de Casa · São Paulo, SP 00000000 · Brazil

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