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Amigos por correspondência

Meu e-mail apitou a newsletter de uma colega autora e eu corri para ler, da mesma forma que eu corria para a porta de casa quando o carteiro deixava uma das “epistolas de Santiago” no correio. Santiago é um grande amigo com quem me correspondo a anos, cujas primeiras mensagens foram trocadas de forma completamente analógica, enfim, coisa de outro tempo.
O boletim da colega sempre chegava cheio de conselhos de escrita, dicas de leitura, pensamentos sobre a contação de histórias, tudo em um tom amistoso que me fazia querer ler mais, mas o boletim desta semana tinha um tom cansado, insatisfeito, escrito naqueles dias em que todo o esforço parece ter sido vão e você não chegou a lugar algum. Já tive dias assim. Acho que todos tivemos. Tomei a liberdade de responder o boletim, algo que nunca tinha feito antes, para tentar alguma forma de acalento. Não sei se consegui.
Ela não é caso isolado. Escrever é um dos trabalhos mais solitários do mundo. Você passa metade do tempo sozinho escrevendo e a outra metade querendo estar sozinho para escrever. O retorno de todo esse esforço é pífio, financeiramente uma tragédia, um tapinha nas costas quando alguém se lembra que por trás do texto existe algo vagamente humano chamado autor. Uma guerra constante contra quem quer “democratizar a cultura”, mas não se importa em explorar o produtor cultural.
É fácil entender o caminho autodestrutivo que alguns artistas encontram para aliviar suas frustrações. Fácil entender porquê estamos ficando doentes, física e mentalmente, enquanto tentamos lidar com o mundo ao nosso redor.
Nos últimos tempos tenho feito o exercício de escrever pensando no Diego da década de 1990 que sonhava em ser escritor. Escrevo coisas que ele gostaria de ler e que se orgulharia de ter escrito e é assim que tento manter a minha sanidade. Tem ajudado, mas nunca nos piores dias. Nestes, são as palavras dos amigos que ajudam mais.
 

#Cinzas

– Posso tirar uma foto? – A pergunta se repete por onde quer que eu passe, as vezes mais de uma vez, as vezes forma uma fila. Eu deixo. Levanto os braços como se fosse um sonâmbulo, abro um pouco a boca. Fingem pânico. Dão risada. Agradecem constrangidos e seguem pulando, derrubando a bebida atrás do bloco.
– Eu me fantasiei assim no carnaval passado. – Um homem diz para uma garota, mas ela não parece impressionada. A mocinha bonita olha pra mim e solta uma risada constrangida. Eu pisco sabendo o efeito que os olhos leitosos têm, ela cora, tentando saber como sou de verdade sem fantasia. Desde que comecei a seguir o bloco tem sido assim.
A fantasia muda todo ano, sou eu que continuo o mesmo. No ano passado, depois da eleição, usei uma camiseta do Brasil. Fui confrontado por gargalhadas e olhares antipáticos. Este ano escolhi ser professor. 
– Que cheiro horrível. Que galera porca! Suja tudo! – Alguém diz do meu lado, indicando um amontoado de lixo. Sorrio e concordo. Mesmo sabendo que o cheiro vem de mim. Dos vermes que me devoram por dentro. Dos órgãos que apodrecem entre minhas costelas e escorrem pela carne aberta em minha barriga. 
As pessoas nunca sabem quem você é de verdade. Essa é a magia do carnaval: Você pode ser qualquer um. Pode fingir até que está vivo.

#Sublinhado

“A casa da ficção tem muitas janelas, mas somente duas ou três portas.”

– James Wood, Como funciona a ficção

“Um livro deve ser o machado que quebra o mar gelado em nós.”

– Franz Kafka, A metaformose

#Indicações

Al Paccino é Meyer Offerman, um milionário judeu que usa seu dinheiro e influência para caçar nazistas escondidos dentro da sociedade americana. A série adota a estética dos anos 1970, onde ela acontece e lembra bastante séries antigas de espionagem, como missão impossível e Esquadrão Classe A. Intercalando cenas de campos de concentração para contextualizar a vingança dos caçadores. Jonah Heidelbaum, é o mais novo caçador, em conflito entre humanizar e executar os nazistas em seu caminho, enquanto eles se emaranham em uma conspiração que pretende implantar o 4º Reich nos EUA. Em tempos tão sombrios, com extremistas se aproximando tanto do poder, uma série como Hunters nos ajuda a lembrar os horrores do passado e a devolver os nazistas ao seu papel na história, o de vilões.
 

#OssosDoOfício

Cabaré em Chamas é a primeira história publicada pela Revista Mafagafo este ano. Eu já li e resenhei para o blog se vocês quiserem dar uma olhada.
Também fiz uma sugestão de 5 obras de fantasia e ficção científica brasileira que podiam ser adaptadas pela Netflix. Só coisa boa.
As contas chegaram e tenho duas demônias famintas em casa, o que me fez aceitar um trabalho temporário e reduzir o ritmo de escritas. As coisas vão acontecer mais lentamente, mas vão continuar acontecendo, prometo.

#Agradecimentos

Meus agradecimentos ao Victor Burgos, Camila Fernandes, Ana Lúcia Merege, Brena Gentil e Mariana Sgambato, que deram seu apoio no catarse para fazer com que esse boletim saísse da caixa de ideias.

Se você leu até aqui

Os apoiadores do catarse estão ajudando a escolher a arte para os próximos postais colecionáveis. Se você ainda não apoiou, corre que dá tempo.
Se alguma dessas bobagens te interessou, talvez você queira dar uma olhada no conteúdo do meu site, onde publico artigos, contos e crônicas gratuitas periodicamente. Nele você pode também comprar alguns dos meus livros e me ajudar a pagar pela ração dos dois demônios que moram comigo. Para aqueles que estejam se sentindo particularmente generosos (ou culpados de ficar baixando livro pirata, seus danadinhos), estou com campanha aberta no Catarse para financiar uma parte destas loucuras e conseguir viabilizar alguns projetos. A partir de R$5,00 você já me paga um café e garante que eu não durma antes de entregar o próximo capítulo. A meta do catarse estacionou em 20%. O dinheiro ajuda bastante. Vai levar um tempo, mas com ele pretendo pagar um programador para resolver alguns problemas do site. Ainda estamos bem longe da primeira meta e a milhas de distância da meta final, mas estou certo que chegaremos lá.
Você não precisa ajudar, mas se quiser, garante uns mimos. :)

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Diego Guerra | Fantasia e Ficção Científica · Rua de Casa · São Paulo, SP 00000000 · Brazil

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