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Boletim do blog Algumas Observações.

2020.1


Mortes sempre nos rondam não só para nos lembrar do quanto somos frágeis, mas também para nos provocar: “o que você está fazendo com e da sua vida?”. Seja em forma de vírus, câncer, pedras nos rins, infarto, AVC, atropelamento, tropeçar e cair ou qualquer outro modo que vá do filosófico ao esdrúxulo, a morte sempre me afronta nesse sentido.

A última vez que saí de casa foi no dia 13 de março. Fui ao colégio, não havia alunos. Fizemos uma reunião de professores, nos despedimos com um “se cuide” sem sabermos ao certo quando nos veríamos de novo. Voltei para casa caminhando. Eram quase 10 horas da manhã, o sol estava quente; a sombra, fria. O céu sobre mim seguia azul e limpo e o ar, seco como em todos os outonos. Vim para casa tentando não focar nas inúmeras incertezas.

“O que você está fazendo com a sua vida?” — em quase 34 anos, em São Paulo ou nos destinos, a cada vez que escrevo um texto ou que entro em uma sala de aula (real ou virtual) o que eu estou fazendo com a minha vida?

Pensar me fez tomar decisões sérias. Não quero ser infeliz. Pessoas infelizes fazem de quem estão aos seus redores infelizes também. Quero viver a felicidade plena; algo que, para mim, relaciona-se ao meu propósito de vida e à minha paz de espírito.

Um propósito pode mudar de tempos em tempos. Às vezes o que é maravilhoso agora, depois de três, cinco, dez anos, precise ser revisto. É nesse momento também, que a tal pergunta sobre os rumos que estamos levando dói mais, incomoda, persiste e não se faz esquecer. Esta agonia nos obriga a fazer a roda girar.

Dia desses vi uma médica dizendo que “bebês não param de nascer”, algo que me fez pensar que mesmo em meio à morte física e ideológica, sempre há nascimentos. Eles nos lembram de que é possível se reinventar — ainda que não seja fácil.

2020 revirou a minha vida, fugiu de todas as expectativas e, sobretudo, me ensinou que é preciso saber quando parar, quando estabelecer limites. Coragem também é saber o momento exato de dizer "chega".

Não sei bem se esse texto faz sentido para você que me lê. Na verdade, fico aqui submersa no meu existencialismo, me perguntando o que é “fazer sentido” em seu significado mais puro? Será que ele existe? Será que ele existe de forma igualitária para todo mundo? Escrevo sem saber muito bem como traduzir o que sinto, sem conseguir fazer uma leitura cristalina de mim e do mundo. Mas não deixo de tentar e, para isso, observo atentamente: as pessoas na internet só mostram aquela parcela feliz da vida, aquela em que tudo está bem. Acho que, mais do que sobre a pausa e a mudança, esta crônica é um pouco sobre as falsas ideias que um constrói sobre o outro a partir do que se é postado.

Quem me vê falando dos meus alunos, quem me olha falando sobre docência, quem assiste a uma aula, uma palestra, um bate-papo meu, quem recebe uma revisão ou uma leitura crítica, quem faz mentoria de escrita literária, quem leu um livro meu ou o Algumas Observações, quem é meu contato nas redes sociais, todas essas pessoas sabem o quanto eu sou apaixonada pelo que faço, o quanto me entrego, o quanto sou exigente, o quanto acredito que as pessoas — TODAS ELAS — são capazes. Por serem capazes, faço o que faço. Amo essa troca que todas as diversas carreiras me trazem. Amo o aprendizado que cada uma delas agrega à minha vida. Contudo, a felicidade — aquela que eu mencionei no começo, que se relaciona com o propósito — já não existia mais em mim. Estava dando o meu melhor, me esforçando para não deixar a peteca cair, lidando com as crises de identidade e de ansiedade e nada, absolutamente nada, me trazia a tal paz de espírito. Não estava me sentindo útil. Sendo assim, depois de muito refletir, percebi que precisava parar.

Resolvi deixar o ensino regular por um tempo e voar em outros caminhos. Pode ser que eu volte a trabalhar numa escola no futuro? Bem provável. Deixarei de ser professora? Nunca. Mas, agora, precisei respeitar o meu tempo, o meu ritmo, o meu silêncio. Vi que quero resgatar a minha coragem. Quero me dedicar a oferecer todos os cursos livres que estão em fase de planejamento, quero terminar de escrever os meus dois livros (um de prosa, outro de poesia). Quero criar mais conteúdos para internet. Focar nas revisões de texto e nas leituras críticas. Vou pôr em prática o estar presente e voltar a construir a minha autoestima, a minha felicidade.

Meu junho terminou com despedidas e fechamento de um longo ciclo. Julho traz um novo momento surge no meu horizonte. Na quarentena e na vida, um dia de cada vez, sigo. Seguimos juntos. Que 2020.2 seja um tanto mais esperançoso para todos nós.

Pedir demissão em meio de uma pandemia e de uma crise econômica não foi uma decisão fácil. Agora, estou naquela fase de reestruturar a agenda (fazendo uma revisão aqui, outra ali — dando aulas particulares também). Focar, reorganizar, me entender. Tudo está sendo uma experiência nova. Contudo, fico feliz por ver que a minha saúde mental já sentiu os efeitos disso tudo e deu uma boa melhorada. :) 

Em maio e em junho, como estava vivendo essa transição toda, quase não escrevi no blog. Entretanto, alguns posts que foram ao ar nesse período foram importantes e significativos. Compartilho os links abaixo e ficaria muito feliz com a sua leitura e comentário:
Aproveitei essa mudança de carreira para voltar com o canal do YouTube. Para a minha surpresa, na mesma semana em que postei o vídeo de 14 motivos para se ter um blog, a Janaína (do Nina e suas Letras) gravou esse vídeo lindo, lendo o poema Intermitência, do meu livro, A Intermitência das Coisas.

Participações


Também tive a honra de ser entrevistada para a coluna Chicas que Escrevem, de participar do Rabiscos (meu podcast preferido da vida!) e de ser citada nesta lista maravilhosas de escritoras negras que todos devem conhecer
Por último, mas não menos important: você sabia que o blog tem uma lojinha? Lá você pode ter acesso aos meus livros e a outros itens literários. Clique para acessar: 
Loja Algumas Observações
Acho que é isso! 
Se você chegou até aqui, muito obrigada mesmo! 😍 🥰 😘
Nos vemos no mês que vem. 😉
Beijos e queijos,
Fernanda Rodrigues

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